Ucrânia, dois anos depois

Impactos globais da invasão russa na Ucrânia, dois anos depois, e os desafios enfrentados pela comunidade internacional. Por Edoardo Pacelli.

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Prédio destruído em Mariupol, Ucrânia (foto de Victor, Xinhua)
Prédio destruído em Mariupol, Ucrânia (foto de Victor, Xinhua)

O dia 24 de fevereiro de 2022 revelou ao mundo a fragilidade dos equilíbrios geopolíticos, provocando a remodelação da ordem internacional. As consequências dramáticas trouxeram complicações importantes e de longo alcance para a governança global, para a segurança internacional, para as relações comerciais, especialmente para as cadeias de abastecimento globais, bem como estimularam um ressurgimento maciço da inovação militar.

Esta é uma data que ficará impressa, não apenas nos livros de história, mas na memória de todos, como aconteceu por ocasião da queda do Muro de Berlim ou no caso do ataque às Torres Gêmeas, em Nova York.

O trágico ataque russo à Ucrânia teve graves consequências e repercussões tanto na geopolítica como na segurança internacional. Consequências e repercussões que ultrapassam as fronteiras dos dois países.

Uma das principais consequências da invasão foi a aceleração do processo de reorientação tanto da ordem internacional como da reorganização geopolítica, o que levou muitos países a reavaliarem as suas alianças e suas políticas de segurança.

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Uma consequência importante foi o reforço da solidariedade entre a União Europeia e os Estados Unidos, mas que, infelizmente, viu o surgimento de divisões mais profundas a nível global.

A reconsideração das prioridades de defesa com os consequentes investimentos em novas tecnologias foi um dos destaques suscitados pela invasão russa, centrando-se no uso extensivo de drones, na guerra cibernética e nas técnicas de informação, bem como na descoberta da necessidade de renovar a defesa antimísseis.

O apoio militar dos países ocidentais, combinado com a rápida militarização ucraniana, levou a uma mudança drástica na dinâmica do poder em toda a área. No entanto, um novo fator envolveu alguns países da região, reacendendo debates sobre a necessidade de uma expansão da Otan, à qual dois países bálticos, a Suécia e a Finlândia, manifestaram o desejo de aderir. Este fato representa uma evolução importante no que diz respeito à política de segurança europeia, com a consequente alteração profunda dos equilíbrios geoestratégicos, não só na Europa, mas no mundo global.

Além dos países da Otan, outras nações foram forçadas a reformular suas políticas de defesa e dissuasão, enfatizando a prontidão militar, a segurança energética, a defesa coletiva e estudando e adotando novas ferramentas para se defenderem das ameaças cibernéticas.

Os especialistas do Atlantic Council, o think tank norte-americano, consideram que a situação no campo de batalha não é de impasse; pelo contrário, parece estar em constante mudança, especialmente devido aos significativos sucessos da Ucrânia no Mar Negro, onde, de fato, conseguiu comprometer as operações de bloqueio realizadas pelos russos e conseguiu abrir rotas marítimas, permitindo assim a exportação de trigo ucraniano para os mercados, demonstrando que a Rússia não conseguiu o controle do Mar Negro, que Putin considera de fundamental importância.

Um detalhe, porém, emergiu em todo o seu drama, nomeadamente a incapacidade das economias europeia e norte-americana de se transformarem rapidamente em economias de guerra, não sendo assim capazes de lidar com conflitos de grande escala e por longos períodos de tempo, que exigem um grande compromisso de recursos econômicos e humanos. Capacidades e recursos humanos que, pelo contrário, a Ucrânia demonstrou possuir no seu empenho tanto no domínio militar como no civil. Na verdade, apesar das pesadas perdas das forças armadas e do deslocamento simultâneo de milhões de civis que enfrentam o desmantelamento e destruição de infraestruturas e graves crises humanitárias, o país demonstrou um forte sentido de unidade nacional e de resistência em resposta à agressão.

Em conclusão, a invasão russa da Ucrânia gerou uma rede complexa de desafios e de mudanças que vão desde a segurança militar até a geopolítica e da economia à segurança energética. A resposta internacional e a resiliência ucraniana continuam a ser fundamentais na definição do futuro desta crise, com implicações que vão muito além das fronteiras regionais.

Olhando para o futuro, é claro que a guerra na Ucrânia continuará a ter um profundo impacto global. O desafio para a comunidade internacional será não só apoiar a Ucrânia no seu caminho para a reconstrução e a resistência, mas também reconfigurar as relações internacionais de forma a evitar futuros conflitos desta escala. O presidente americano Theodore Roosevelt costumava dizer: “Fale gentilmente e carregue um grande porrete”.

Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), editor da revista Italiamiga e vice-presidente do Ideus.

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