UFRJ investiga como Prevent Senior difundiu ‘tratamento precoce’

Cerca de 800 vídeos publicados no YouTube em 2020 e 2021 foram analisados, inclusive alguns já fora do ar.

O laboratório Conexões do Clima, vinculado ao Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, publicou, na última sexta-feira, o primeiro relatório de combate à desinformação científica, com resultados sobre como a questão do “tratamento precoce” contra a Covid-19 apareceu no YouTube nos últimos meses. Trata-se daquele procedimento defendido pelo presidente Jair Bolsonaro na assembleia de abertura das Nações Unidas que prega o uso de medicamentos ineficazes no combate ao coronavírus. De acordo com o documento, há grande destaque para a presença da empresa Prevent Senior, que atua no mercado de planos de saúde para idosos, e sua articulação com o governo federal.

Criado em novembro de 2020 e composto de especialistas de diversas disciplinas da universidade (Biologia, Comunicação, Filosofia, História, entre outras), o laboratório tem a proposta de não só evidenciar questões que giram em torno dos debates sobre clima, mas também de discutir a relação entre ciência e sociedade, e, mais especificamente, a desinformação.

Segundo a coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, Tatiana Roque, que coordena o laboratório, “o Conexões do Clima é um laboratório que investiga a desinformação a respeito de temas de impacto em políticas públicas. Isso é absolutamente relevante neste momento de crise entre ciência e política”.

Nos últimos meses, os pesquisadores analisaram o conteúdo sobre o tema “tratamento precoce” na maior plataforma da internet voltada para vídeos. O objetivo era avaliar como se dava a indicação de medicamentos sem eficácia comprovada no combate à Covid-19 por meio do YouTube. O procedimento sem embasamento passou também a constar em documentos do Ministério da Saúde e ter definições semelhantes em abordagens de outros diversos defensores, tais como “tratamento imediato”, “tratamento inicial” ou “protocolo precoce”.

Para os pesquisadores que assinam o relatório, Fernanda Bruno, Isabela Kalil e Tatiana Roque, o termo foi utilizado como uma estratégia de comunicação por meio do qual a extrema direita brasileira mobilizou parcela da sociedade para obtenção de ganhos econômicos e políticos.

Segundo Tatiana Roque, está claro que o objetivo “era propagandear um tratamento precoce para a pandemia a fim de não empregar outras medidas, como o uso de máscaras e o distanciamento social”, afirma.

Durante pouco mais de uma semana do mês de maio, o Conexões do Clima e a empresa especializada Novelo Data baixaram os conteúdos digitais publicados em diversos canais. O período de extração dos dados da plataforma antecedeu à iniciativa do YouTube de retirar os conteúdos que propagavam desinformação ou foram até deletados pelos próprios produtores. O que permitiu que até 11 vídeos do canal de Jair Bolsonaro, posteriormente apagados, tenham sido incluídos na amostragem. No total, foram 785 vídeos coletados, entre março de 2020 e maio de 2021, posteriormente divididos em três grupos: os favoráveis ao tratamento precoce, os contrários ao tratamento precoce e aqueles em que não foi possível averiguar um posicionamento claro e foram considerados neutros. Destaque para seis vídeos postados em abril de 2020 que citavam a empresa Prevent Senior por ter feito a “descoberta” de um tratamento inovador que prescrevia a administração de hidroxicloroquina nos primeiros três dias de apresentação dos sintomas da Covid-19.

“A Prevent Senior foi responsável por inventar o termo ‘tratamento precoce’ e por tentar convencer as pessoas de que a hidroxicloroquina era efetiva se tomada nos primeiros dias de sintomas da doença”, enfatizou Tatiana.

Dentre as conclusões do relatório, ficou evidente para os pesquisadores do Conexões do Clima que o protocolo de indicação de tratamento com hidroxicloroquina já estava na pauta dos médicos que auxiliavam o governo, como Nise Yamaguchi e Paolo Zanotto, mas a aproximação com a Prevent Senior teve o papel-chave de esclarecer acerca do uso precoce.

Já a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), em nota aos beneficiários da operadora, também na sexta-feira, informou que “monitora, de forma permanente, o setor de planos privados de assistência à saúde. Esse monitoramento é feito de diversas formas, principalmente por meio da análise de dados recebidos periodicamente das operadoras e das reclamações registradas por consumidores e prestadores de serviços de saúde nos canais de atendimento da agência”; e que “está tomando todas as providências possíveis para apuração dos indícios de infrações à legislação da saúde suplementar e está atuando para um rápido retorno à sociedade dentro de suas atribuições. Importante esclarecer que nem todas as questões levantadas estão sob a regulação que compete à ANS”.

A ANS é responsável pela regulação das operadoras de planos de saúde e administradoras de benefícios e pela relação entre as operadoras e os prestadores de serviços de saúde – profissionais e estabelecimentos como hospitais, clínicas e laboratórios, mas não tem competência para regular a atividade de profissionais e dos estabelecimentos de saúde, diz o texto: “a ANS iniciou suas ações tão logo teve ciência das denúncias contra a Prevent Senior. Assim que foram divulgadas as denúncias de interferência da operadora no trabalho dos médicos e de não comunicação da operadora sobre o uso de medicamentos, a ANS instaurou processos de apuração (respectivamente em 8/09 e em 20/09) e realizou diligências in loco e telefônicas; solicitou informações à operadora; enviou ofícios a médicos e ex-médicos; e realizou reunião presencial com representantes da operadora. As análises das informações estão em curso e são necessárias para subsidiar as decisões sobre medidas que venham a ser tomadas pela ANS.”

Leia também:

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