Um fim de mundo

Por Eduardo Marinho.

Opinião / 16:11 - 18 de set de 2020

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Tenho ouvido muito “quando passar essa pandemia”, “quando tudo voltar ao normal”, “passando a quarentena”... sei não. Normal? Voltar a que normal? O medíocre? O desumano? Continuar com miséria, fome, desabrigo, abandono? De um lado uns poucos usufruindo de excessos, luxos e privilégios, de outro uma enorme maioria vivendo entre dificuldades, carências, roubada nos seus direitos básicos, humanos, constitucionais.

Voltar ao normal vai ser a pior coisa, se acontecer. Pra que, então, morreram tantos de Covid? Pra que se dividiu a sociedade tão brutalmente, famílias que se estranharam, personalidades, mentalidades se revelando, se separando, se setorizando. Não se sabia com quem se tratava, ficou-se sabendo e se estabeleceram divisões.

Os descaramentos vieram de monte, os mecanismos de controle social se mostram às claras, pra quem tem olhos de ver. Os poderes chamados públicos nunca foram públicos, uma farsa institucional foi montada, desenvolvida e é permanentemente atualizada. O interesse de um punhado de podres de ricos se insinua pra dentro das instituições e as dominam, controlam, influenciam e corrompem. A propriedade, a grana, o lucro valem mais, bem mais que a vida humana. Todas as vezes que um governo começa a servir aos desservidos, passa a ser difamado, odiado e, afinal, derrubado.

Nunca vi tão descarada a estrutura da sociedade, perversa, empresarista, desumana, mentirosa, covarde, antissocial, controlada dos subterrâneos, dos bastidores do teatro macabro dos marionetes legislativos, executivos e judiciários. Interesses banqueiro-mega-empresariais prevalecem, são rapidamente atendidos em prejuízo das populações. Os que mandam são servidos primeiro. A força da sociedade, inconsciente, é servida de forma secundária, pra que o sofrimento não chegue a ponto de questionar as mentiras. É o que se pode perceber nos movimentos de fato, nas decisões dos poderes ditos “públicos”.

Não tem volta ao normal, esse normal injusto, antissocial e sem escrúpulos, sensibilidade ou respeito à vida. Há muito mais forças e entidades envolvidas do que se percebe. Isso não pode voltar, confio no “apocalipse”, na morte desse mundo – pra poder nascer um outro. O “sacode planetário” tá só começando.

Passando a pandemia começa outra coisa, durante já tão acontecendo várias outras – o derretimento das calotas polares, por exemplo, parece que a do norte já foi, a do sul é um continente, tem muita terra por baixo do gelo e já tá aparecendo em várias partes; o nível do mar continua subindo; vulcões explodindo; avistamentos de extraterrestres relatados como nunca no mundo inteiro. Furacões, ciclones, terremotos, tsunamis, num ritmo característico de mutações intensas.

Outras virão na sequência, dando continuidade ao fim desse mundo. Depois vem outra coisa, e outra, e outra, até que a estrutura institucional se desacredite, desmorone, fique sem condições de funcionar. E a gente comece a construir outra sociedade, cheia de autonomias, cooperativa, humana, solidária. Que tenha no centro de importância o ser humano, a sua formação desde a infância, alimentação, abrigo, instrução, preparação, informação, desenvolvimento e integração – individual e, por consequência, coletiva – como parte da natureza, do equilíbrio planetário, de um universo de dimensões ainda desconhecidas.

Eduardo Marinho

Artista de rua e escritor, mantém o site observareabsorver.blogspot.com

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