Um mestre que chega aos Campos Elíseos

Por José Carlos de Assis.

Opinião / 21:55 - 5 de jun de 2020

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Confesso que vivi. Este poderia ser o epitáfio de Carlos Lessa, lembrando o livro homônimo de Pablo Neruda. Foi uma vida intensa, corajosa, dedicada plenamente ao bem público, intercalada de sobrevoos hedonistas na cidade em que amava de forma absoluta e abnegada. Tinha duas paixões. A economia política e o Rio. Sobre este último escreveu um livro histórico, O Rio de todos os brasis, que colocou a cidade amada, de forma incontestável, como centro de convergência e polo de todas as trajetórias brasileiras.

Foi um dos maiores oradores que conheci, emparelhado com Maria da Conceição Tavares, a parceira intelectual que cultivou desde o exílio e com quem dividiu, durante décadas, a liderança intelectual dos economistas no Rio. Nos anos 70, eram imbatíveis nos seminários. Foi então que o conheci, para consolidar uma amizade de mais de quatro décadas. Não fui seu aluno formal, mas de Maria da Conceição. Mas nossas longas conversas, suas intervenções em seminários, seus livros me ensinaram mais que um curso inteiro.

Era uma alma essencialmente generosa. Estava próximo dos amigos em momentos alegres e tristes. Inúmeros vezes subi a ladeira do Cosme Velho onde morava para discutir com ele questões cruciais a política econômica. Rigoroso na análise, foi um crítico implacável da economia do regime militar, a qual, não obstante seu legado positivo de grandes obras físicas, legou também ao país uma dupla dívida pública, externa e interna, que não teria sido necessária para ancorar o desenvolvimento econômico.

Um dia, depois de um seminário, andávamos a pé pela avenida Rio Branco celebrando o sucesso que fizeram, ele e Conceição, diante de uma plateia encantada. Lessa dizia algo assim: “Não vão nos parar facilmente, porque não temos vulnerabilidades. Não podem nos chamar de ladrões porque não há como provar que somos ladrões. Não podem dizer que desviamos dinheiro público porque não mexemos com dinheiro público. Não podem tentar nos envolver com mulheres porque...” ele então parou e disse: “Aí é preciso ter cuidado!”

Nossa relação pessoal nunca foi afetada por absolutamente nada, exceto a dificuldade que tive para vê-lo nos seus últimos meses de vida. Não me via como um economista especialmente destacado, porém certamente, como um bom economista. Mas me via como um jornalista econômico excepcional, não se cansando de me elogiar por isso. Isso equilibrava nossos julgamentos, porque o economista excepcional que ele era não se comparava com o escritor, que se manifestava de uma forma sofrida, embora logicamente impecável.

Um dia estive em sua casa e ele estava debruçado sobre uma mesa escrevendo com a mão. Naquela época, ainda não dominava o computador. Ele substituía o computador com recortes de escritos que ia intercalando no texto, cortando, colocando, corrigindo. Era extraordinário como daquela balbúrdia pudesse sair um texto limpo, gostoso de ler, como sua obra-prima O Rio de todos os brasis. Contudo, este era produto da paixão. A razão produziu importantes textos e livros, que ensinaram gerações de economistas a pensar.

Carlos Lessa fará falta ao Brasil. Por enquanto não tem substituto.

Para quem já estava com uma doença grave há meses, talvez seja reconfortante, aos 83 anos, selar o próprio destino sem ter que refletir e discutir, o que era essencial no nosso grupo, sobre a desgraça que se abateu no Brasil com Bolsonaro. Ele irá para os Campos Elísios levando as lembranças e esperanças de sua juventude fértil e criativa, sem que sua alma passe pelo calvário maldito da maior crise sanitária e econômica da história do país, alimentadas por Bolsonaro.

 

José Carlos de Assis

Economista e jornalista.

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