Um novo governo em Israel e um velho perigo: Netanyahu na oposição

Por Eduardo Beniacar.

Enquanto um novo governo toma posse em Israel, depois de anos de domínio político de Netanyahu, muitas pessoas estão se perguntando sobre quais as chances do novo primeiro-ministro, Naftali Bennett, mudar significativamente o rumo da prosa das relações de Israel com os palestinos da Faixa de Gaza e Cisjordânia? A resposta é curta: as chances são muito baixas. Quase nulas, na verdade, e aqui eu apenas evito dizer que “não há nenhuma chance” para não ser taxado de futurólogo.

É verdade que o noticiário dá conta, e que muitos analistas já confirmaram: Naftali Bennett é um político que, ao longo dos últimos anos, tem se posicionado à direita do próprio Netanyahu quando o assunto é a questão palestina, e isso é um fato incontestável.

Por outro lado, é necessário ponderar que Bennett é uma figura sui generis e rara – um empresário ortodoxo de filiação moderna – capaz de se reinventar, e que busca hegemonizar o espectro político da centro-direita em Israel, não se restringindo ao radicalismo ultradireitista. Seu senso de realismo e pragmatismo são aguçados, e nenhuma nova grande mudança de curso chegaria a surpreender o espectador israelense menos atento.

A questão que levanto não é sobre se Bennett irá caminhar ao centro para equilibrar sua própria coalizão de governo (onde seu partido tem apenas 5 de 60 cadeiras), ou se seu radicalismo tradicional irá falar mais alto, bloqueando qualquer caminho para a moderação.

A verdade é que o que unifica essa amplíssima e estranha coalizão – que envolve socialistas, trabalhistas, liberais, muçulmanos e conservadores – é antes de tudo o desejo de afastar Netanyahu do poder por tempo suficiente para que ele possa ser julgado e condenado nos processos que sofre, sendo definitivamente afastado da vida política em razão dos escândalos de corrupção.

Muito se engana quem acredita que Bibi vai aceitar passivamente este destino. Duro no governo, o líder do Likud já provou ser ainda muito mais virulento na oposição. Não custa lembrar que nos anos 1990, enquanto Yitzhak Rabin conduzia os Acordos de Paz entre e Israel e a Organização para a Libertação da Palestina, Netanyahu liderava a radicalização da oposição nas ruas que culminou com um atentado terrorista, onde um israelense extremista tirou a vida do então primeiro-ministro de Israel.

Bennett conhece Bibi Netanyahu de perto. Foi seu assessor direto, serviu a seus governos como ministro da Defesa e ministro da Educação em diferentes momentos. O novo primeiro-ministro e três dos cinco deputados de seu partido já contam hoje com a segurança pessoal reforçada pelo Serviço Secreto, em razão das ameaças que estão sofrendo dos setores mais raivosos das facções ultrarradicais do sionismo.

As primeiras 48 horas do novo governo já deram mostra sobre qual será o caminho da oposição: uma “Marcha das Bandeiras”, promovida pela extrema-direita, foi flagrada entoando gritos de “mortes aos árabes” nos portões da Cidade Velha de Jerusalém, e o clima de tensão desencadeou os primeiros atritos na fronteira de Gaza desde o cessar fogo durante a madrugada.

Ao amanhecer, o Likud (Partido de Netanyahu) apresentou ao Parlamento uma moção para derrubar o governo e realizar novas eleições, sob a alegação de fraude. Naftali Bennett, o novo primeiro-ministro, sabe melhor do que ninguém que o ex-premiê não será afastado da vida política nacional e conduzido à prisão passivamente, sem antes atear fogo – mais uma vez – nas ruas do próprio país.

 

Eduardo Beniacar é mestre em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

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