Um Oscar previsível

Com justiça, Academia celebra filmaço de Paul Thomas Anderson

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Paul Thomas Anderson e Sarah Murphy recebem Oscar de Melhor Filme 2026 por 'Uma Batalha Após a Outra'
Paul Thomas Anderson e Sarah Murphy recebem Oscar de Melhor Filme 2026 por 'Uma Batalha Após a Outra' (foto de Trae Patton, Academia)

Quem acompanha este espaço com atenção talvez se lembre que dediquei uma coluna, cinco meses atrás, ao filme Uma Batalha Após a Outra, o grande vencedor do Oscar do último domingo, com seis prêmios – melhor filme, diretor, roteiro adaptado, ator coadjuvante, direção de elenco e edição. Quando o filme estreou, em outubro, já dava toda pinta do que viria pela frente.

Paul Thomas Anderson (PTA) é um dos diretores mais prestigiados da atualidade, conhecido por uma narrativa recheada de personagens intensos, dilemas morais e retratos profundos da sociedade norte-americana. Aos 55 anos, ainda não havia recebido o devido reconhecimento da Academia, apesar de já ter outras 14 indicações (como diretor, roteirista e produtor) e assinar obras marcantes como Sangue Negro (2007), Licorice Pizza (2021) e Trama Fantasma (2017).

Pessoalmente, estava torcendo por PTA e por seu filme. Entre os dez indicados, era o meu favorito – em segundo vinha Hamnet, mas sabia que a obra da diretora Chloé Zhao não tinha chance na categoria principal. Acabou levando apenas o prêmio de melhor atriz, para Jessie Buckley. A irlandesa, a propósito, foi a maior vencedora individual da temporada. Além do Oscar, ganhou o Bafta, o Critics Choice Awards, o Globo de Ouro e o Actor Awards, além de várias outras premiações menos famosas. A performance dela na última cena do filme, ao som de On the Nature of Daylight (por favor, ouça essa música), é das coisas mais arrebatadoras que vimos no cinema nas últimas décadas – uma catarse coletiva devastadora.

Recordista geral da história do Oscar (16 indicações), Pecadores ficou com apenas quatro estatuetas, incluindo a de melhor ator para Michael B. Jordan. Na briga com Timothée Chalamet, ele acabou sendo beneficiado pelas bobagens que o jovem ator falou e pela polêmica em que o filme Marty Supreme se envolveu na reta final do Oscar. Uma pena. O filme teve 9 indicações e saiu de mãos abanando.

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Claro que, como brasileiro, fiquei na torcida por uma vitória histórica de Wagner Moura, que fez um trabalho brilhante em O Agente Secreto, mas, pessoalmente, acho que a melhor atuação da temporada foi a de Chalamet. Aos 30 anos e com três indicações na carreira, ele fatalmente vai acabar vencendo um dia. Que isso sirva de aprendizado para que o talentosíssimo ator seja mais humilde e meça as palavras em suas entrevistas. Isso conta muito hoje em dia e, com certeza, pesou contra ele – ainda mais tendo na disputa Michael B. Jordan, competente e queridíssimo em Hollywood.

Mas o filme de Jordan não é dos meus preferidos – longas de terror não me agradam de forma geral, mas é óbvio que reconheço as qualidades estéticas da obra de Ryan Coogler. A cena de dança coletiva, ainda na primeira metade do filme, é espetacular. A câmera circula pelo salão e, à medida que a música evolui, o espaço se transforma: diferentes épocas e estilos musicais surgem simbolicamente no mesmo ambiente. Blues, soul, jazz, hip-hop e outros ritmos são representados por músicos e dançarinos que parecem vir de tempos distintos, como se a história da música negra estivesse sendo convocada naquele instante – passado, presente e futuro da cultura afro-americana. Junto com a cena de Hamnet, que citei aqui, são as duas melhores coisas do ano.

Vitória de ‘Valor Sentimental’ frustra, mas não deixa de ser justa

Sobre a derrota de O Agente Secreto na categoria de filme internacional, apesar de dolorida, não podemos reclamar. Valor Sentimental é um filmaço, e o Oscar está em ótimas mãos com o norueguês Joachim Trier. Ele assina um filme lindíssimo, sensível e com um elenco de primeira – não à toa, os quatro principais atores/atrizes foram indicados: Stellan Skarsgård, Renate Reinsve, Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning.

Uma pena também que o diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso não tenha vencido pelo lindíssimo Sonhos de Trem. Menos mal que o prêmio foi para as mãos de Autumn Arkapaw, de Pecadores, a primeira mulher em quase cem anos a ganhar o Oscar de melhor fotografia.

Outro ponto alto da noite foi a homenagem a Robert Redford, que faleceu ano passado. Barbra Streisand, aos 83 anos, cantando The way we were, música dos dois no filme Nosso Amor de Ontem (1973), vai ficar certamente na história da premiação. De arrepiar.

No mais, as mesmas piadas sem graça de sempre, conduzidas pelo comediante inexpressivo Conan O’Brien (saudades de Billy Crystal e Whoopi Goldberg), e Guerreiras do K-Pop ganhando melhor canção original (quase me joguei da janela). De positivo, o fato de a festa ter começado um pouco mais cedo. Deu para dormir antes de meia-noite.

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