Um presidente golpista

Por Paulo Alonso.

Dessa vez, as comemorações pelo Dia da Independência foram bem diferentes das tradicionais, quando desfiles militares e paradas por todo o país eram apreciados; quando brasileiros e brasileiros costumavam festejar a liberdade e, ao mesmo tempo, sentir orgulho da Pátria Mãe Gentil.

Ao contrário, a última terça-feira, 7 de setembro, dia em que se comemorava os 199 anos de liberdade, foi atípico, com manifestações capitaneadas pelo presidente-capitão Jair Bolsonaro, com retórica golpista e absolutamente inaceitável.

Ele já vinha manipulando os seus seguidores, desde julho, para que com eles estivesse em praças públicas, para desacatar a Ordem e o Progresso; pregar insurreição contra o STF; querer enfatizar que o TSE é desnecessário; proclamar seus desatinos contra o Congresso Nacional; bradar contra a democracia; defender atos institucionais baixados em plena ditadura militar (1964-1985); e ainda ter a coragem, e parece ser surreal, de defender o voto impresso, mesmo depois de a Câmara dos Deputados ter enterrado a sua pretensão de acabar com o voto digital. E não podemos nos esquecer que esse mesmo cidadão foi eleito deputado federal, oito vezes, e presidente da República, com votos depositados em urnas eletrônicas.

Eu era muito pequeno, quando o Brasil sofreu, em 31 de março de 1964, o truculento Golpe Militar, que afastou o presidente João Goulart da chefia do Poder Executivo, mesmo ele ainda estando em solo brasileiro. A saída de Jango abriu caminho para que um golpe fosse dado, e os resultados todos sabemos e com ele convivemos durante 21 anos.

Conversando com Denise Goulart, ela lembrava, em um post, que seu pai tomara posse no cargo máximo da República num dia 7 de setembro. E décadas depois, num mesmo 7 de setembro, os brasileiros presenciam, perplexos, uma nova tentativa de golpe contra o Brasil e a favor de ideias contrárias à democracia e as liberdades.

Bolsonaro liderou, com sua trupe, perigosíssimos atos golpistas e ampliou, na mesma medida, o seu isolamento político. Quis partir para o tudo ou nada. E levará a pior, pois, em um regime democrático, ninguém pode estar acima da Constituição Federal, promulgada no dia 5 de outubro de 1988, a chamada Carta Cidadã, pelo então deputado federal Ulysses Guimarães – o Senhor Diretas.

De forma totalmente tresloucada, com olhar esbugalhado e fora de controle, o ainda líder da Nação desafiou o povo, atacou de maneira vil o ministro Alexandre de Moraes, principalmente, chamando-o de “canalha” e dizendo que “para nós não (ele) existe mais” ou “qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, esse presidente não cumprirá” ou “dizer a esse ministro que ele tem tempo para se redimir, tem tempo ainda para arquivar seus inquéritos”.

Ora, todas essas ameaças eloquentes feitas por um governante máximo é improcedente na história do país e é uma perigosíssima ameaça institucional, pois ninguém está acima da Constituição – bíblia sagrada dos princípios que regem a República do Brasil.

O seu usual descontrole foi além, quando mandou recados, sem citar o nome do presidente do STF, ministro Luiz Fux, ou quando resolveu nominar o ministro Luiz Roberto Barroso, presidente do TSE, no momento em que atacou, e novamente, o sistema eleitoral do país.

Essas manifestações havidas em 179 cidades espalhadas pelo Brasil afora reuniram os simpatizantes de Bolsonaro, que não representam o povo brasileiro. Na Avenida Paulista, o ato pró-Bolsonaro reuniu 125 mil pessoas, apenas 6% do esperado por seus organizadores. Importante salientar que a impopularidade do presidente da República atinge os 65%, de acordo com as últimas pesquisas. Logo, fica claro que é uma pequena, muito pequena parcela da população que ainda o vem apoiando.

Incoerente com o discurso que prega e desequilibrado em atos e ações, Bolsonaro ainda disse que “não aceitaremos qualquer medida fora das quatro linhas da Constituição. Não podemos aceitar que uma pessoa específica da região dos Três Poderes continue barbarizando nossa população. Ou o chefe desse Poder enquadra o seu ou esse Poder pode sofrer aquilo que não queremos”. Ameaça pública.

Bolsonaro, acuado e sem força política, no Senado apenas 15 dos 81 senadores o apoiam, e diante desse caos por ele instaurado, o Centrão ameaça desembarcar do seu governo, além de partidos estarem requerendo o seu impeachment. Todos esses contundentes discursos antidemocráticos cuspidos por ele mostram os crimes que vem dia após dia cometendo.

E coube ao ex-decano, ex-presidente e ministro aposentado do STF Celso de Mello declarar: “Os discursos de Bolsonaro, em Brasília e em São Paulo, revelam a triste figura e a distorcida mente autocrática de um político medíocre e sem noção dos limites éticos e constitucionais que devem pautar a conduta de um verdadeiro chefe de Estado que seja capaz de respeitar o dogma fundamental da separação de Poderes.”

Na mesma linha e em defesa do Brasil, de sua gente e em respeito à Constituição, se posicionaram o também ex-presidente do STF ministro aposentado Ayres de Britto, o presidente da OAB, Santa Cruz – que declarou “chegou o momento histórico de os presidentes da Câmara e do Senado tomarem posição. A sociedade espera atitude firme de defesa da democracia” – e dezenas de políticos das várias correntes ideológicas, como o deputado federal Marcelo Ramos (PL-AM), vice-presidente da Câmara: “Não tenho mais dúvida de que o presidente cometeu crime de responsabilidade.”

Aliás, em Brasília, chamou atenção o papel exercido pelo ex-piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet, que dirigia o Rolls-Royce presidencial em plena Esplanada dos Ministérios. Piquet saiu do podium das corridas para entrar para a História, desempenhando um papel absolutamente ridículo, triste e terrivelmente desconcertante como motorista de um golpista.

Já na Avenida Atlântica, no Rio, Fabrício Queiroz, denunciando pelo MP como operador do esquema da rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, na Alerj, distribuía abraços e sorrisos e fazia selfies com o deputado federal Otoni de Paula (PSC-RJ) e com o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL-RJ), além de ter prestado continência a uma imagem de Roberto Jefferson, presidente do PTB e preso no inquérito das milícias digitais do STF.

Jair Bolsonaro chegou ao limite máximo da sua nojenta retórica golpista. Daqui para frente e desacreditado pela grande maioria dos brasileiros, só lhe resta a ação. Depois de todos os impropérios ditos, nos comícios de Brasília e de São Paulo, só lhe restará responder a um processo de impeachment por gravíssimo crime contra a Constituição, contra o Brasil e contra as suas instituições. Caso isso não ocorra, o país estará absolutamente desmoralizado.

Faz-se mister que o deputado Arthur Lira (PP-AL) presidente da Câmara dos deputados, o único brasileiro com poder para abrir um processo de impeachment, aja, imediatamente, diante do clamor dos políticos, do povo, das autoridades constituídas e, sobretudo, tendo em vista todas as provas robustas e necessárias para a abertura desse processo. Aliás, já são mais de 120 pedidos de impeachment trancados em suas gavetas…

E agora, Arthur Lira?

Não há mais como esperar, e a Nação tem pressa. Problemas graves estão na ordem do dia, como o desemprego de 14 milhões de pessoas; saúde precária, com quase 600 mil mortes, por causa da Covid-19; meio ambiente vilipendiado; cultura à beira da morte; educação na geladeira; economia em frangalhos; segurança pública necessitando de amparo; e o Brasil desacreditado no cenário internacional.

A incitação de Bolsonaro foi categórica, violenta, de péssimo tom. Foram tantos os desatinos ditos e cometidos que a população, incrédula, ficou atônita. Ao dizer que não aceitaria mais decisões do ministro do STF Alexandre de Moraes, a quem chamou de canalha; ao ameaçar intervir no STF; ao declarar que é hora de soltar os presos políticos, se referindo aos criminosos Roberto Jefferson e Daniel Silveira; ao avisar que não aceitará eleição sem voto impresso, que já foi derrubado pela Câmara; e, finalmente, ao informar que não sairá do “Palácio do Planalto a não ser pelas mãos de Deus”, como uma negativa de aceitação do resultado eleitoral, em 2022, Bolsonaro mostrou sua cara de forma nua e crua.

Se alguns parlamentares ainda mantinham a esperança de seguir até o final do ano que vem contornando as loucuras e bravatas de Bolsonaro, ficou claro, nesse 7 de setembro, que essa caminhada será praticamente impossível, pois o Brasil precisa de alguém que trabalhe e resolva suas mazelas, e não um aventureiro que queira tomar de assalto o país, com gritos, berros e gestos incompatíveis com a liturgia do cargo.

Cabe, neste momento de violento assassinato da democracia, aos que vivem desse regime e que recebem mandatos e salários para defendê-la, deputados e senadores, implementarem imediatamente a única saída não apontada por Bolsonaro no seu discurso radical e aviltante: o seu afastamento constitucional decidido pela maioria dos parlamentares brasileiros.

Qualquer alternativa dará ao presidente enlouquecido a sensação de que pode tudo. E, sabemos, que ele não pode. Faz-se mister, todavia, que ele tenha certeza das suas reais limitações. Precisa respeitar o art. 5º da Constituição (XLIV): “Constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático.”

Seria pertinente que os ex-presidentes da República José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer se unissem, deixassem as divergências políticas de lado, nesse momento crucial da vida nacional e, juntos, promovessem um pacto pela democracia e pelo fim desse (des)governo, cujo titular entrará certamente para a História como o pior presidente da República do Brasil. A reconstrução do país, depois desse período negro, demorará muito tempo e não podemos mais perder tempo.

O tempo urge.

 

Paulo Alonso é jornalista.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigos Relacionados

Desafio sob a Torre Eiffel

Por Edoardo Pacelli.

Últimas Notícias

Vale cancela ações em tesouraria sem reduzir o valor do capital social

O Conselho de Administração da mineradora Vale aprovou o cancelamento de 152.016.372 ações ordinárias de emissão da companhia adquiridas em programas de recompra anteriores...

Eve: Aeronaves elétricas de emissão zero de carbono

A Eve Urban Air Mobility, da Embraer, e a francesa Helipass, plataforma de reserva de voo em helicópteros para turismo e mobilidade aérea, anunciaram...

Petrobras terá arquivos nas nuvens

A Petrobras inaugurou, na última sexta-feira (17), o Centro de Competência em Computação em Nuvem (CCC), que vai direcionar e acelerar a estratégia de...

Evergrande: Crise pode afetar exportação de minério de ferro

A segunda-feira foi bastante movimentada com a notícia vinda da China que a Evergrande Real Estate, gigante do setor de incorporação imobiliária no país...

Brics: Título para ter receita e financiar projetos de infraestrutura

Brics: Título para ter receita e financiar projetos de infraestrutura O Novo Banco de Desenvolvimento do Brics (NDB, em inglês) emitiu um título denominado em...