Um retrato do Brasil da década de 1970

Filme de Kleber Mendonça Filho estreia com grandes chances de repetir, no ano que vem, o feito de Walter Salles

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Cena do filme O Agente Secreto, com Wagner Moura no papel principal
O Agente Secreto (foto de Victor Jucá, divulgação)

Depois que Ainda Estou Aqui conquistou o prêmio de melhor filme internacional, e Fernanda Torres foi indicada ao Oscar de melhor atriz, era difícil imaginar que o Brasil teria chances de repetir o feito no ano seguinte. Mas o que era improvável parece agora próximo de se tornar realidade. O Agente Secreto estreou nos cinemas na última quinta-feira com toda pinta de que vai enfileirar premiações, como fez o longa de Walter Salles.

O filme de Kleber Mendonça Filho teve uma trajetória internacional expressiva antes mesmo da estreia comercial de semana passada. Mundialmente lançado em Cannes, conquistou no Festival os prêmios de melhor diretor, com Kleber, e ator, com Wagner Moura. Recebeu também reconhecimento em outros festivais pelo mundo, o que demonstra a força da produção do diretor pernambucano. Não à toa foi escolhido para representar o Brasil na categoria de melhor filme internacional do Oscar. Temos chances reais.

O filme se passa em Recife, em 1977, e a história acompanha um professor universitário (Wagner Moura) que retorna para sua cidade natal em busca de um recomeço, fugindo de algo que não sabemos muito bem o que é. Mas imaginamos. Esse suspense é um dos pontos altos do filme. Kleber, que também assina o roteiro, não dá as coisas de mão beijada – e isso é maravilhoso.

A escolha de 1977 não é aleatória. O diretor tinha entre 9 e 10 anos à época, e as lembranças de Recife são muito vivas em sua memória. Tudo foi transportado para a tela com riqueza de detalhes, e um dos méritos do longa é a esmerada reconstituição de época. Locações, figurinos e a atmosfera em geral criam uma textura temporal que transporta o espectador para aquele momento histórico.

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O trabalho de direção de arte de Thales Junqueira é fantástico. Kleber já havia feito essa volta à Recife de sua infância com o documentário Retratos Fantasmas (2023), uma deliciosa imersão sobre a transformação urbana do centro da capital pernambucana, com destaque para as salas de cinema, especialmente o “São Luiz”, que agora retorna como um dos protagonistas de O Agente Secreto – as cenas que se passam ali têm um quê de Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore. Foi nessas salas de exibição que Kleber cresceu e se apaixonou pela sétima arte.

A ambientação não serve apenas como pano de fundo decorativo: ela se entrelaça intimamente à narrativa de opressão, vigilância e silêncio da trama. As ruas, a arquitetura, a moda e os veículos são usados para recriar a tensão do período, um misto de drama e suspense instigante.


Wagner Moura e Tânia Maria brilham com a direção afinada de Kleber

É um filme incômodo, de roteiro engenhoso e maravilhosas atuações de um grande elenco, que, além de Wagner, tem Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Alice Carvalho, o alemão Udo Kier e a fantástica Tânia Maria.

Esta última é um achado de Kleber. Tânia era uma artesã septuagenária de uma cidadezinha do Rio Grande do Norte, quando foi convidada pelo diretor para participar de Bacurau (2019). Agora, aos 78 anos, ela retorna com um papel bem maior e uma atuação que rouba praticamente todas as cenas das quais participa. Impossível ficar indiferente ao carisma e à presença da atriz.

Outro que brilha intensamente é Wagner Moura, muito cotado para repetir o feito de Fernanda Torres e ser indicado ao Oscar de melhor ator. Diferente de Fernandinha, Wagner já vem se destacando há alguns anos no cenário internacional, e isso pode lhe ajudar a ser lembrado entre os melhores protagonistas do ano. Seria merecidíssimo. Aos 49 anos, ele é hoje o nosso ator com maior projeção internacional.

A propósito, a relação de afinidade entre Kleber e Wagner não é nova. Ambos enxergam de forma muito semelhante as questões estéticas e políticas do cinema brasileiro contemporâneo, compartilhando uma conexão de amizade e admiração mútuas. Os dois começaram a trabalhar juntos em Bacurau. Apesar de Wagner não atuar no longa de 2019, o ator participou dos bastidores como colaborador informal e deu apoio na divulgação internacional da obra.

A parceria se consolidou agora de forma ainda mais forte, com Wagner Moura participando também como um dos produtores-executivos do filme, ao lado de Emilie Lesclaux, esposa de Kleber.

O Agente Secreto está disponível apenas nos cinemas e só deve chegar a alguma plataforma de streaming no ano que vem. Portanto, não perca a oportunidade e vá correndo assistir na tela grande. Garanto que você não vai se arrepender – é um filmaço.


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