"Uma conferência é uma reunião de pessoas importantes que, sozinhas, não podem

Empresa Cidadã / 14:19 - 24 de abr de 2001

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

fazer nada mas que, juntas, têm o poder de decidir que nada pode ser feito." (John F. Sullivan, 1894-1956). Terminou no último dia 22 a Cúpula das Américas, em Quebec. Da mesma forma como aconteceu nas duas reuniões anteriores, a de Miami, em 1994, e a de Santiago, em 1998, os presidentes dos 34 países participantes emitiram um compromisso, a "Declaração da Cidade de Quebec", redigido com expressões de boas intenções e verbos no futuro. O combate à pobreza e às desigualdades aparecem como alvos de destaque e o desenvolvimento econômico e social, aliado à democracia, como os dardos certeiros. Os principais compromissos retratados no documento chegam a uma dúzia de vontades que começam pela conclusão das negociações do Alca até 2005. O acordo, cujas conseqüências para o Brasil são objeto de preocupação da nossa condição de país independente, pode atropelar as discussões, por enquanto praticamente restritas a algumas entidades de representação empresarial. Outros compromissos da Declaração. Reduzir a pobreza em 50% até o ano 2015. Simultaneamente o presidente do Banco Mundial (Bird), James Wolfensohn, declarou que vai propor à diretoria do Bird nos próximos dias a abertura de crédito, de US$ 12 bilhões a US$ 16 bilhões, para financiar nos próximos três anos este compromisso. Junto com ele, o presidente Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias, acrescentou que seu banco dispõe de US$ 40 bilhões para a mesma finalidade. Mais compromissos. Combater as drogas e crimes correlatos, o tráfico e uso criminoso de armas de fogo. Adotar estratégias de combate a Aids, garantir a Proteção Ambiental e o uso sustentável dos Recursos Naturais. Promover o respeito ao cumprimento das normas trabalhistas fundamentais. Melhorar o acesso à educação de qualidade e o uso de tecnologias da informação e da comunicação. Garantir acesso ao sistema de saúde, bem como a medicamentos a custo razoável. Combater a corrupção. Qual a credibilidade de declarações deste tipo? Enquanto elas são feitas, os mesmos jornais noticiam que o traficante Beira-Mar pagava uma mesada de US$ 10 milhões para conseguir a troca de armas por drogas. A guerra do tóxico, combatida no front da produção colombiana, é perdida na retaguarda do consumo americano e europeu. Enquanto isso, Bill Gates perde o posto de homem mais rico do mundo para Sam Robson Walton, após três anos consecutivos em primeiro lugar. Walton acumulou mais de US$ 65 bilhões, importância capaz de fazer os dólares do BID e do Bird para o combate às desigualdades ficarem vermelhos e não verdes. A Wal-Mart de Walton é a mesma que em 1993 foi flagrada empregando crianças em Bangladesh, o que levou à aprovação de lei pelo Congresso Americano, apresentada pelo senador Tom Harkin, proibindo as importações pelos EUA de países que permitem o trabalho infantil. Enquanto isso também, o presidente dos EUA decidiu não ratificar o Protocolo de Kioto, que previa a redução de 5,2% da emissão de gases até 2012 dos países mais industrializados. Só os EUA, desde 1950, já lançaram mais de 186 milhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera, contra 57,6 milhões de toneladas lançadas pela China, com uma população quase cinco vezes maior, ou 15,5 milhões de toneladas da Índia. Na hora em que a conta é apresentada, é que se vê que ela deve ser dividida. O presidente dos EUA não assina porque diz que isto prejudicaria a sua economia e que é preciso recomeçar a cobrança do zero. Enquanto isso, dois ônibus escolares com a inscrição "Toda Criança na Escola" ainda visível na lataria enferrujam no pátio da Prefeitura de Montalvânia, no Norte de Minas Gerais. Como os ônibus estão parados, Edmundo Alves de Almeida, 14 anos, percorre 6 km para ir e 6 para voltar da escola, onde cursa a 6ª série. Entre Canoas, sua cidade, e Montalvânia ele não chega a ouvir os protestos contra a globalização de Quebec mas sabe exatamente o que significa desigualdade de oportunidades. IRRESPONSABILIDADE SOCIAL A Danone fechou uma fábrica na França e demitiu 570 trabalhadores. Depois do anúncio das demissões, caiu a preferência pela Danone entre os consumidores franceses, indo a empresa parar atrás até da TotalFinaElf, espécie de puleiro de galinheiro na pouca admiração dos franceses. Contribuiu para a queda o boicote convocado pelos partidos de esquerda contra os produtos Danone e a sensibilidade dos consumidores para a questão social. Recuperar a marca sairá mais caro do que a manutenção do emprego.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor