Uma França dividida

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Os resultados do recente primeiro turno das eleições presidenciais na França sinalizam que o país deseja mudanças, não só pela vitória apertada de François Hollande mas também pelo crescimento da candidatura de direita de Marine Le Pen. A França vive um momento difícil com 1 milhão de desempregados e com o crescimento da violência. Por outro lado, Sarkozy volta a utilizar um discurso de xenofobismo, que pode trazer consequências incontroláveis, para um país que vive de uma imigração importante e que busca sobreviver numa diversidade, às vezes difícil para o “francês médio”, pelo crescimento do Islamismo e a entrada de músicas em outros idiomas, inclusive em árabe nos sucessos locais.
A verdade é que o país passa por uma crise de identidade, que se percebe em algumas cidades onde a frequência de outras culturas e nacionalidades está mais presente, além de um radicalismo em não aceitar que houve sim, uma grande mudança na cultura dita francesa, que ficou muito mais rica com o aporte das ex-colônias e os casamentos mistos, além da modernidade que podem gerar no pensamento, tantas idéias novas. O Brasil é um exemplo de como a junção de culturas trouxe um pensamento revolucionário do entendimento das diferenças, embora também passe por alguns movimentos que querem renegar tal painel de encontro da diversidade.
Passei parte da minha vida estudando em estabelecimentos de língua francesa e fiz de Paris,uma segunda residência nas férias e em momentos importantes e sempre senti um grau grande de separação entre franceses e franceses oriundos de outras culturas, além dos imigrantes. É só passear por alguns prédios das redondezas de Nation e Chateau de Vincennes e sentir um conflito latente. Sinto, no entanto, que a aproximidade em imóveis, denominados “H.LM.”(habitation à loyer modere) levou a um individuo mais tolerante e que sente também os reflexos do euro e da economia na vida cotidiana.
O segundo turno que acontecerá agora em maio vai possibilitar uma nova França: que permite que estrangeiros votem nas eleições municipais, que tem a coragem de questionar leis que apregoam laicidade, embora queiram dividir crédulos e se posicionar na manutenção das usinas nucleares . Por outo lado, Marine Le Pen se prepara para as legislativas e surge como uma opção para os que rejeitam candidaturas mais arrojadas mas sabe que se apoiar Sarkozy, enfraquece seu partido e suas pretensões. Prefere ver vitoriosa a oposição, para poder se tornar a grande contestadora da França.
Ficamos assim aguardando o que o francês vai decidir no dia 06 de maio mas certos de que o crescimento do pensamento de extrema direita radical não é bom para a Europa e pode suscitar conflitos maiores do que aqueles que já existem, em função de idiomas ou religiões. A França é um celeiro da democracia e precisa continuar caminhando assim. Os grandes pensadores, poetas, artistas, diretores de cinema e cantores que fazem sucesso no mundo inteiro são prova de que não se deve abrir mão da vontade de liberdade, fraternidade e igualdade, num mundo globalizado.

Bayard do Coutto Boiteux
Escritor, pesquisador consultor de Turismo e professor universitário.
(www.bayardboiteux.com.br)

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