Urbano e de nível superior

A pesquisa feita em julho pelo Datafolha sobre o governo interino e o processo de impeachment gerou polêmica pela forma como foi divulgada pela Folha de S.Paulo (veja a nota da coluna em http://monitordigital.com.br/preferencia-por-temer/), que mereceu do jornalista Glenn Greenwald a acusação de “fraude jornalística” e a reprimenda, ainda que um tanto demorada, da ombusdman do jornal, Paula Cesarino Costa, a qual afirmou que a Folha “errou e persistiu no erro” ao publicar dados incompletos. Mas o problema da pesquisa não se resume à divulgação. Ele começa na própria relação jornal–instituto e continua na amostragem, crítica já feita não só ao Datafolha, mas a outras empresas de pesquisa, em diversas ocasiões.

Dos entrevistados ouvidos em julho, 20% têm ensino superior. O percentual é bem acima do registrado no TSE em 2014 (5,6%) e do Censo Demográfico do IBGE de 2010 (10,8%). Pesquisa Ipsos sobre o mesmo tema, divulgada uma semana depois, tinha 9,4% das pessoas da amostragem com curso universitário. A diferença acaba refletindo nas respostas. Por exemplo, o Datafolha perguntou qual é o principal problema do país hoje. Quem tem curso superior apontou a corrupção (47%), o que puxou a média para cima (32%). Já quem tem apenas o fundamental aponta saúde (25%) e desemprego (22%).

Outro problema é que as pesquisas ouvem apenas o morador das cidades. O campo fica de fora, e ele representa quase 20% do eleitorado. Mas a pesquisa é apresentada como se refletisse o pensamento de todos os brasileiros. (Diga-se de passagem, ao divulgar o estudo, o Datafolha fez o que o jornalismo da Folha ignorou; o título dizia “Governo Temer é aprovado por 14% e reprovado por 31%”; no subtítulo, “58% querem afastamento definitivo de Dilma Rousseff, e 62% são favoráveis a nova eleição”)

Há um terceiro problema, este estrutural: onde começa o jornal e termina o instituto? Em entrevista ao site Intercept, de Glenn Greenwald, Luciana Chong, do Datafolha, insistiu que foi a Folha, e não o instituto de pesquisa, quem estabeleceu as perguntas a serem colocadas. O “cliente” participar da definição do escopo da pesquisa é normal; inconcebível é determinar as perguntas – e provavelmente as respostas – a serem apresentadas no questionário.

Tudo isso somado e temos um quadro perfeito para questionamentos e levantamento de suspeitas de manipulação. Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha, afirmou que é prerrogativa da Redação escolher o que acha jornalisticamente mais relevante no momento em que decide publicar a pesquisa. “O resultado da questão sobre a dupla renúncia de Dilma e Temer não nos pareceu especialmente noticioso, por praticamente repetir a tendência de pesquisa anterior e pela mudança no atual cenário político, em que essa possibilidade não é mais levada em conta.” Também é prerrogativa dos leitores mudarem de fonte de informação, o que está ocorrendo – e deixando alarmados os jornalões.

Desempenho do Moro

A inflação de brasileiros com curso superior na pesquisa do Datafolha turbina a aprovação ao desempenho do juiz Sergio Moro na Operação Lava Jato. Ela é ótima/boa para 75% dos entrevistados com nível universitário, percentual que cai para 53% entre os que possuem apenas o fundamental. Por outro lado, neste grupo, 16% acha o desempenho ruim/péssimo, ante 9% dos que possuem nível superior.

Contratos foram feitos para serem rasgados

O homem forte das privatizações do Governo Temer, Moreira Franco, ensinou, em entrevista na quinta-feira, que é preciso mudar os contratos já assinados com concessionárias de rodovias para atrair novos investidores. Justo agora, que esta coluna estava quase acreditando que, para atender aos investidores, é necessário respeito aos contratos!

Multa para grupos ligados aos Koch

A Comissão Federal Eleitoral (FEC) dos Estados Unidos multou em US$ 233 mil três grupos ligados aos irmãos bilionários Charles e David Koch, por não terem revelado a origem dos fundos que foram utilizados na campanha de 2010 para o Congresso. Segundo a ONG Center for Public Integrity, a punição é algo pouco usual; a FEC, que controla o financiamento das candidaturas, é acusada de ser inofensiva. A American Encore (na época, Center to Protect Patient Rights) é a entidade controlada pelos Koch que doou milhões a três organizações. Estes grupos, por sua vez, pagaram anúncios em benefícios de candidatos republicanos ou contra democratas.

Os irmãos Koch são sócios e possuem, segundo a revista norte-americana Forbes, US$ 39,6 bilhões cada; somadas as fortunas, ficam à frente de Bill Gates, o número um da lista (Charles e David, isoladamente, aparecem em nono lugar). O grupo Koch Industries é a segunda maior empresa de capital fechado dos EUA, depois de Cargill. Os irmãos dão suporte à direita conservadora republicana e expandem seu apoio a entidades de extrema-direita em outros países. No Brasil, foram acusados de financiar os atos contra Dilma Rousseff. O Movimento Brasil Livre (MBL) nega ter recebido dinheiro dos Koch.

Rápidas

A exposição Arte Funcional, de Felipe Barbosa, será inaugurada neste, às 13h, e ficará na Sergio Gonçalves Galeria até 17 de setembro. A mostra dialoga com o clima olímpico que a cidade do Rio de Janeiro viveA galeria fica na Rua do Rosário, 38, Centro, Rio de Janeiro (próximo ao CCBB) *** No dia 4, o Shopping Jardim Guadalupe (RJ) e o Sebrae realizam a oficina “Sei Planejar”, voltada exclusivamente para microempreendedores individuais. Para participar, os interessados deverão se cadastrar pelo telefone 0800 5700800.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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