Urnas, oportunistas e aventureiros

Centenas de milhares de pessoas foram às ruas neste domingo protestar contra o governo do PT. Mas, numa manifestação em que um dos slogans impressos em belas faixas falava que “o povo quer o fim da corrupção”, mais uma vez faltou… povo. Como mostrou o Datafolha, participou dos protestos o extrato superior da renda brasileira, basicamente empresários, funcionários públicos e profissionais liberais. Não que isso signifique um apoio do trabalhador ao governo. Longe disso. Mas é inegável que os organizadores não conseguiram atingir e mobilizar a parte da sociedade que mais sofre com a crise política e econômica. E isso ocorre não somente pela distância entre os que convocaram a manifestação e a população mais pobre. Decorre também da falta de críticas à política econômica, ao desemprego e à inflação, além de ausência de propostas para atacar estes problemas.

A saída para a crise que vem sendo costurada nos palácios também passou longe das avenidas. Não à toa. Para uma campanha pautada na moralidade, o impeachment de Dilma, com a assunção de Michel Temer ao poder, em dobradinha com o PSDB, tem cheiro de golpe, além de forte caráter provisório. O PMDB foi sócio majoritário nos governos petistas em toda a sorte de esquemas nas licitações e nas estatais. A não ser que as investigações da Lava Jato e o processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) minguem no exato momento em que Dilma for apeada do poder, logo ambos chegariam aos peemedebistas (até Aécio passou a temer um processo no TSE após as últimas delações vazadas).

Um governo de união nacional parece uma miragem, torpedeado por dois anos de uma campanha por uma ética parcial, que poupa alguns para tirar do poder outros. Os riscos são muitos, e a paralisia se prolongaria por alguns meses. Não há como fugir das urnas. Mas a pergunta que atemoriza todos é: quem seria eleito?
Premier

Uma solução que cresceu no fim de semana foi a da adoção do parlamentarismo como saída para a crise. O sistema também não passou no teste das urnas: foi derrotado duas vezes quando o povo foi chamado a opinar – na última, no plebiscito de 1993, o presidencialismo venceu com mais do que o dobro de votos.

Talvez o principal argumento contrário seria, parafraseando o ex-cotitular desta coluna, quando anunciassem, com voz grave, o novo mandatário: “Sua excelência, o primeiro-ministro Eduardo Cunha…”
Matemática

Os números são as primeiras vítimas em uma batalha. Não que a apuração correta da quantidade de manifestantes vá reduzir o vigor do protesto. Mas faz bem à Matemática. O Datafolha contabilizou 400 mil pessoas na Avenida Paulista, menos de um terço do que o 1,4 milhão estimados pela PM de Alckmin. Levando a proporção aos demais números divulgados no país, a quantidade real seria de quase 1 milhão de participantes, ou centenas de milhares, como informaram meios de comunicação estrangeiros.

No Rio, ocorreu o inverso. A PM não faz estimativas. Mas o comandante do batalhão da área falou em 80 mil a 100 mil pessoas. Já os organizadores, como a Rede Globo, cravaram 1 milhão. A Avenida Atlântica, de ponta a ponta, tem cerca de 4 quilômetros, com largura de 60 metros, o que dá um total de 240 mil metros quarados. Como os próprios promotores do evento falam que dez dos 25 quarteirões estavam tomados, no momento de maior concentração, e levando em conta uma média de duas pessoas por metro quadrado (em um comício bem apertado, pode-se chegar a seis pessoas/m², número difícil de se obter em uma passeata, ainda mais com o perfil de público da de domingo), alcança-se algo entre 180 mil e 250 mil pessoas.
Grisalhos

Chamou a atenção a ausência de jovens no protesto de domingo. Em São Paulo, o Datafolha apurou que apenas 9% dos manifestantes tinham menos de 25 anos. Bem diferente dos movimentos em junho de 2013, quando a juventude tomou as ruas.
Coxinha unido…

Será que o movimento para tirar o PT do poder será conhecido nos livros de História, daqui a alguns anos, como A Revolta dos “Coxinha”?
Rápidas

Nesta quarta, às 19h30, a Faap recebe o advogado Nelson Wilians. Ele vai falar na Semana da Administração sobre os desafios e particularidades de gerir o maior escritório de advocacia do país *** Também nesta quarta, a Coppe/UFRJ receberá o engenheiro Mardson McQuay, vice-presidente e chefe do Conselho de Propriedade Intelectual da Compagnie Générale de Géophysique (CGG), que ministrará a palestra “The Fundamentals of Intellectual Property Law for University Faculty, Students, and Technology Transfer Officials”. O evento será às 14h, no auditório do Laboratório de Sistemas Avançados de Gestão da Produção (Sage), na Cidade Universitária *** Nesta terça-feira, o Hemorio e a Agência Campi lançam, em parceria com o Instituto Masan, a nona edição da campanha Universitário Sangue Bom, que levará coleta de sangue itinerante para 11 faculdades do Rio de Janeiro *** Os ministros da Defesa, Aldo Rebelo, e do Esporte, George Hilton, visitam nesta terça os centros de preparação e formação de atletas militares e civis para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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