Vacinação em massa ou guerra total

No final dos anos 1970, empresários paulistas assinaram o manifesto “O Brasil tem que mudar”. Foram signatários desse documento, entre outros tantos, figuras como Severo Gomes, Cláudio Bardella e Antonio Ermírio de Moraes. Exigia mais democracia, maior fortalecimento das indústrias e equilíbrio social mediante mais empregos e renda.

Hoje (outono de 2021), no meio de uma crise sanitária semelhante à “gripe espanhola” do século XX, a carta dos banqueiros e seus economistas liberais – um típico caso de amnésia coletiva – poderia ser intitulada de “Vou mudar do Brasil para o exterior” – notadamente Portugal, Suíça e Canadá, onde já reside parte da elite econômica brasileira.

A missiva não pede reindustrialização, não reconhece que os ricos pagam pouco imposto na terra da jabuticaba e não pede juros módicos, ou políticas sociais e de crédito para salvar os pequenos negócios e os 20 milhões de empregos perdidos, desde 2015.

O Brasil de hoje se assemelha à Itália retratada na série Saburra, onde a elite eclesiástica só pensava em dinheiro e poder praticando costumes esquisitos, as máfias dominavam setores importantes da economia, e a classe política corrupta praticava o cretinismo parlamentar fingindo lutar pelas causas populares.

Das 23 empresas automotivas instaladas em nosso país, mediante fortes subsídios e renúncias fiscais, 13 estão total ou parcialmente paralisadas. Ou seja, de um total de 58 fábricas, 29 (50%) estão semiparalisadas ou completamente paralisadas. Efeito tanto do risco de contaminação dos trabalhadores nas fábricas, quanto da queda abrupta da demanda por veículos no nosso país. Os dados de emplacamento de veículos mostram, nos primeiros meses de 2021, uma queda de 14%, em relação a 2020.

Neste contexto, os empregos sumiram. Lembrando: popularidade é igual à soma de empregos, renda e custo de vida para a maioria da população votante. Com salários em queda, desemprego em alta e carestia dos alimentos sem controle, a popularidade de toda nossa classe política rasteja. Para piorar, no ritmo de vacinação atual, levaremos 10 meses para atingir 75% da população – nível considerado adequado pelos especialistas.

Mesmo assim, os partidos só pensam em 2020. Nesse quadro, o capitão resiste no Palácio da Alvorada apoiado pelo Centrão (esse ente gelatinoso da política brasileira), agronegócio, grandes empresas do varejo, mineradoras e bancos médios representados pelo Guedes, além do eleitorado médio interiorano.

Lula insiste com o programa popular-democrático e busca o apoio do mundo das finanças, dos industriais pró-BNDES e partidos liberais de esquerda (PCdoB e PSOL).

Ciro Gomes persiste com seu novo-desenvolvimentismo de caráter nacionalista, sem contar com a figura-chave (a burguesia nacional), e os liberais internacionalistas/lacerdistas (DEM/PSDB) liderados por FHC buscam um “messias” para chamarem de seu.

Essa é a fotografia momentânea. Como nenhum pré-candidato respondeu, até agora, satisfatoriamente, o que fará com o “teto de gastos” e com o regime de “metas de inflação” que já perdura por décadas, apertem os cintos!

 

Ranulfo Vidigal é economista.

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