Ao contemplarmos o Brasil dos anos 40 ou 50, com sua baixa renda per capita (US$ 197 em 1953 a dólares da época), com o PIB brasileiro classificado abaixo da 50ª posição, num país então carente de tudo – de escolas, hospitais, estradas, infra-estrutura, energia – e apenas exportando café (num mau uso das terras roxas), fica mais fácil diante daquela pobreza nacional imaginar o impacto de Vargas, de suas idéias e do sonho de um país mais rico e independente.
Por ter moralizado e organizado vários aspectos da vida nacional, como concursos para o funcionalismo público, estrutura jurídico-trabalhista e sindical, previdência social e investimento público em infra-estrutura via empresas estatais, com os símbolos iniciais da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) e da Petrobras, Vargas foi no Brasil o líder que rompeu com a estrutura agrária, dando os primeiros passos para uma industrialização em larga escala que apenas se esboçava em São Paulo nos anos 20 e 30. Entretanto a economia paulista ancorada na superprodução do café, numa época em que não havia a crítica radical deste fenômeno, incluindo o mal uso sócio-econômico das terras roxas – mais úteis para grãos, por exemplo – (e que hoje se excede no açúcar), a economia paulista era importadora de bens e serviços para suprir suas necessidades, vez que obtinha moeda forte através da troca do café, estando portanto despreocupada com soluções nacionais e não paulistas. Não é à toa que de São Paulo não surgiu qualquer líder político nacional – à exceção de Plínio Salgado – porque a visão sócio-econômica que lá se desenvolveu restringiu-se à solução de seus problemas econômicos a partir de sua riqueza agrícola de base. Não é à toa que São Paulo buscou derrubar Vargas na Revolução Constitucionalista de 1932 e ainda comemora aquele feito, sem fazer uma revisão histórica da figura de Vargas como construtor não apenas do mito da independência nacional, mas dos fundamentos desta independência.
Além disto, ao ter Vargas colocado dinheiro do Tesouro na aquisição do excesso de café, construindo uma política favorável àquela economia em detrimento do país, merecia desde então uma consideração de honra do setor cafeeiro paulista e menção especial. Mas disto se cala a mídia, sobretudo agora quando mais uma vez o mal uso das terras roxas – e que em última análise integram a Bacia do Prata – lançam aquela economia agrícola na superprodução do açúcar e do álcool, contribuindo para a baixa dos preços internacionais do açúcar, para a degradação da frota nacional de veículos pelo excesso do álcool na gasolina e para a eclosão da mão-de-obra agrícola não fixada ao campo, ” os bóias-frias”, fenômeno paulista e do setor sucro-alcoleiro, a lhes morder definitivamente o rabo, preço natural a pagar pelo mau uso das terras roxas da Bacia do Prata, ao contrário da exploração desenvolvida pelos demais setores agrícolas deste importante complexo hídrico mundial.
O Brasil pós-Vargas cresceu na ideologia da grandeza e da independência econômica, infelizmente truncada no choque do petróleo dos anos 70, cuja dívida resultante para sua importação, exponencializada pelo choque dos juros americanos, muito cresceu, alcançando US$ 100 bilhões no início dos anos 90, mas finalmente reduzida, nas negociações por força do Plano Brady, secretário do Tesouro americano, e retirando-se dela justamente parcela daqueles juros desordenados, crítica histórica anterior, por fim aceita.
Mas mesmo com esta trombada econômica do choque do petróleo e da dívida, além da hiper-inflação (fruto de uma correção monetária mal concebida por autores fracos em matemática, finanças e econometria – Campos e Bulhões). mesmo assim o país continuou a crescer, alcançando a posição de oitava economia do mundo, malgrado sua péssima distribuição de renda.
A conclusão prática é que modelo e sonho de Vargas foram triunfantes, trilhando o país na direção da independência econômica, pelo menos a nível de sua infra-estrutura.
A venda arrasadora e inútil desta infra-estrutura econômica, por US$ 81 bilhões até 1998, com o objetivo de reduzir dívida interna e externa – destruído pelo salto da primeira, de R$ 60 bilhões para mais de R$ 400 bilhões entre 94 e 98, e da segunda, de US$ 90 bilhões para US$ 220 bilhões – por não ter atingido seus alvos, esta venda arrasadora reinstalou no país um processo de crescente dependência econômica, marca registrada do atual Governo de FHC, autor da dependência.
Doravante, não só centros de decisão sobre a infra-estrutura econômica do país foram deslocados para exterior, tornando inútil e sem sentido reflexões econômicas à la 70 na busca de qualquer modelo econômico (afinal o modelo introduzido por FHC é o da dependência), mas igualmente ficou o país mais dependente de moeda estrangeira tanto para o serviço da nova dívida externa explícita, que cresceu, quanto implícita, na remessa de juros e dividendos que nestes cinco anos saltou de US$ 900 milhões para US$ 7 bilhões.
Portanto, com FHC se instaura um recuo econômico no país e uma nova dependência econômica, agravada pela explosão da dívida. Tudo que a mente mais perversa jamais conseguiria engendrar há cinco anos passados.
E quando FHC propõe-se a superar a Era Vargas, embora assine a sua segunda posse com a caneta dele, pretende superar mito e prática da independência econômica formulada e alicerçada por Vargas. (O mau conselho de Sérgio Mota: “Não se apequene”).
A dependência econômica do país, construída aceleradamente por FHC e sua equipe, está aí e não deixa ninguém mentir. A conta é muito alta, da dívida interna e externa.
Dificilmente o país conseguirá pagá-la via seus insumos tradicionais de exportação, agrícola ou industriais. A desvalorização cambial, filha dileta da inteligência paulista – do campus à Fiesp – não tem força suficiente para refazer o modelo exportador dos anos 70 e 80, quando, à custa de preços aviltados de produtos siderúrgicos estatais, tarifas elétricas idem, juros negativos e subsídios ficais, aquele parque industrial paulista conseguia competir para exportar. Portanto aqui o FHC foi iludido por seus pares. (“Não se apequene”).
O que vai pagar esta imensa dívida que se abateu sobre o país de FHC será o petróleo. A conquista da auto-suficiência, quando o país não mais importar os 600 mil barris/dia de hoje, significará, de saída, a preços de US$ 20/b, o montante de US$ 4,3 bilhões a menos nas importações. E quando o país puder exportar outros tantos 600 mil b/d obterá idêntico valor para minorar a remessa de juros e dividendos da atual instalada dependência econômica, que certamente superarão, lá na frente, US$ 10 bilhões. Sem considerar hipóteses de securitização da dívida externa com garantia em petróleo, ou ainda regimes especiais em que o produto entre na relação de troca, analogamente ao que quer fazer o Estado do Rio.
Com a abundância de petróleo, o Brasil redescobrirá Vargas, sua ideologia e seu mito de um Brasil gigante e independente. Pois foi com a ousadia de Vargas e com o seu sacrifício que se construiu a independência parcial do Brasil, de sua infra-estrutura econômica, obnublada pela atual praxis econômica cujo lema oficial passou a ser “O Petróleo é Vosso”, mas que, justamente por sua inesperada abundância – sonho de Vargas – haverá de nos resgatar desta gigantesca dívida financeira e social, reerguendo-se de novo o país, lá na frente, no pós-dependência de FHC, então com Vargas e com petróleo. O sonho de Vargas se torna realidade.
Paulo Guilherme Hostin Sämy
Diretor da Associação Brasileira dos Analistas de Mercado de Capitais (Abamec-Rio), especialista em bancos e comércio exterior.















