Veias abertas

Em lugar de motivo de comemoração, o ingresso de capital externo direto no País deveria causar preocupação. Em artigo publicado ontem no MM, o ex-ministro Rubens Ricupero, secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), advertiu a respeito dos reflexos da remessa de lucros e royalties sobre o balanço de pagamentos brasileira e sobre o agravamento do estrangulamento externo, principal causa do crescimento medíocre imposto ao País – média de 1,7% nos anos 90.
O economista Nelson Le Cocq, que desenvolve estudo sobre o tema, lembra que, historicamente, 10% a 15% do chamado capital direto costumam deixar o País sob a forma de remessa de lucros e royalties. Ano passado, por exemplo, o ingresso de US$ 29,976 bilhões em capital direto – o maior registrado na história do País – correspondeu à exportação líquida de US$ 4,058 bilhões – 13,53% daquele total – a título de remessa de lucros e royalties. Esse item representou 16,64% do déficit das contas externas brasileiras, em 99. Para este ano, Le Cocq estima que a perda do País causada por essa rubrica deve chegar a, no mínimo, US$ 10 bilhões. É o típico caso de vazamento anunciado, além da transferência de setores produtivos estratégicos para centros decisórios externos.

Global
Estudo divulgado ontem pela Deloitte Touche Tohmatsu no Fórum Econômico Mundial, que se realiza em Davos (Suíça), procura medir o impacto da globalização no valor corporativo de uma empresa. O trabalho denominado “Líderes Inovadores em Globalização” revela que 84% das empresas que tiveram uma boa classificação, segundo um Índice de Globalização da Deloitte, apresentaram um desempenho melhor do que o S&P 500 (índice que mede desempenho das empresas na Bolsa de Nova York) nos últimos cinco anos. “Os resultados do estudo deste ano confirmam que tornar-se uma empresa realmente global atende os interesses dos acionistas “, disse Jacques Manardo da Deloitte Touche Tohmatsu. Resta saber se lucro para o acionista rima com emprego e desenvolvimento.

Ingenuidade
O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, entregou à CPI dos Medicamentos levantamento realizado pela instituição sobre a remessa de lucros ao exterior feita pela indústria farmacêutica nos últimos cinco anos e disse que considera o fluxo das operações “normal””. Sobre a possibilidade de estar ocorrendo superfaturamento nas importações de insumos da indústria farmacêutica, Fraga disse desconhecer o assunto e que o Banco Central só poderá apurar alguma coisa se houver uma denúncia. Pode-se concluir, portanto, que o estudo feito pelo BC não passa de desperdício de dinheiro público. Até a velhinha de Taubaté tem conhecimento do esquema utilizado pela indústria farmacêutica em todo mundo para remeter lucros: comprar os insumos das matrizes a preços estratosféricos.

Acidente
Está marcada para hoje às 18 horas, no Senado, a audiência pública para discutir o acidente ambiental causado pelo derramamento de mais de um milhão de litros de óleo na Baía de Guanabara pela Petrobras. Foram convidados o presidente da empresa, Henri Reichstul, o responsável pela área ambiental da companhia (função atualmente a cargo do superintendente de Exploração e Produção, Rodolfo Landin), o secretário de Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro, André Correa, e o deputado estadual Carlos Minc (PT). A iniciativa é do senador Geraldo Cândido (PT-RJ).

Jogo
Especialista em neurociências e desenvolvimento psicológico e mental, o ex-diretor-geral do Fundo das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), o espanhol Federico Mayor Zaragoza, condenou a atitude dos Estados Unidos em relação ao menino cubano Elian. Segundo Zaragoza, um dia de demora pode estar colocando em risco a estabilidade emocional de Elian pelo resto da vida. Enfatizou anda que a Declaração Universal dos Direitos da Criança deixa claro que, em um caso como esse, a criança deve regressar a seu país.

Ameaça
A continuação do atual modelo econômico em escala mundial pode levar 400 milhões de latino-americanos e caribenhos a passar fome em 2015. A estimativa foi feita por Francisco Roque, diretor-geral do Programa Mundial de Alimentos para a América Látina. Ele disse que os problemas mais urgentes hoje na região são a indigência e a fome. Salientou que as populações rurais são as mais prejudicadas porque não têm acesso a alimentos importados.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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