Velho regime

A melancólica falência do governo FH ensejou em seus idealizadores ansiedade reveladora de seu caráter autoritário: a quimera de institucionalizar a política econômica. Em mais um exemplo prático do que o sociólogo polonês Peter Sloterdijk batizou de razão cínica ao definir o exercício da hipocrisia do bom-mocismo pela ideologia oficial para dissimular seu caráter perverso, a continuidade da política econômica que levou o país à vergonha do racionamento é apresentada justamente como a única salvação para evitar que o Brasil vá à breca.
Oposicionistas menos preocupados em vencer para mudar do que em mudar para vencer têm ajudado à propagação desse aventureirismo que, como mostra o finado governo De la Rúa, é experiência de curtíssima duração. Removidos a maquiagem e os paetês postos pela propaganda oficial, o principal obstáculo à estabilidade do país é a imprevidente dependência de capital externo para fechar suas contas com o exterior. A remoção dessa armadilha é tarefa intransferível e inadiável para qualquer governo que não faça da mudança mera peça de marketing.
Sua articulação com a abertura comercial irresponsável, a política cambial frouxa e os juros extorsivos forma o conjunto da obra que levou o país às portas do caos. Nesse sentido, qualquer sinalização de compromisso com a manutenção do atual modelo deve ser assumida, com todas letras, como desejo de nada mudar. Nesse contexto, até promessas de “maior atenção ao social” devem ser tratadas como realmente serão materializadas: como mera demagogia ou esmola avarenta.
Como as eleições são oportunidade ímpar para as diversas forças políticas e sociais exporem seus projetos e procurarem disputar a hegemonia da sociedade, qualquer candidato e partido é livre para defender a continuidade do velho e carcomido regime tucano. Para não ser taxado de demagogo, porém, deve se considerar proibido de apresentar o continuísmo com a roupagem de uma transformação verdadeira.    

Resistência
Cresce no mundo a resistência à privatização dos serviços públicos. Em Dusseldorf, Alemanha, 97 mil cidadãos disseram não, em plebiscito, aos planos do prefeito da cidade de 600 mil habitantes de vender as empresas de eletricidade e água. Apenas 10% dos que compareceram ao referendo apoiaram o prefeito.
Cartel
O deputado norte-americano Bob Filner, democrata, acusou as multinacionais de energia de atuarem como um cartel, que se dedica somente a obter lucros. “Se dependesse de mim estariam na cadeia”, afirmou Filner, segundo o boletim Solidariedade Ibero-americana, editado pelo MSIA. O deputado democrata disse que a crise na Califórnia tem demonstrado que não importa, para essas empresas, o desenvolvimento social. “Elas não hesitam em manipular o mercado, acusou. “Estamos pagando US$ 3 milhões por hora, US$ 70 milhões por dia, US$ 2 bilhões por mês. Não se pode sobreviver nessas condições”.

Portunhol
Até empresas que têm na informática sua razão de ser continuam escorregando na hora de ocupar seu espaço na Internet. O site da HP – uma das maiores do setor e líder em impressoras – do Brasil é um primor de desinformação. Menos que pouco ou nada informarem, provocam uma navegação confusa, deixando um possível consumidor sem informações básicas sobre os produtos da companhia. Além disso, o site sofre de uma praga comum em empresas norte-americanas, que vêem a América Latina como um território único, sem levar em conta as diferenças culturais, principalmente da língua. Quem se embrenha nas páginas da HP do Brasil se depara repentinamente com expressões em espanhol.

Sem cura
Um site com informações sobre preços de medicamentos está no ar. No www.medicart.com.br pode-se verificar as distorções de preços de medicamentos, com diferenças que podem chegar a 500%.

Fim de linha
Ironia com os adoradores da dolarização. A banda endógena do Cavallo atende pelo nome de euro.

Artificial
Aumentam as denúncias de manipulação na Califórnia. Jornais, como o San Francisco Chronicle, trouxeram depoimentos de operadores das geradoras de energia que reforçam a tese de que a crise no mais rico estado norte-americano foi provocada artificialmente. Em um dos casos, citam ordem da empresa Reliant para interromper o funcionamento de uma usina porque o estado se recusava a pagar os US$ 1 mil por megawatt/hora pedidos: “É nossa unidade. Desliguem-na”, sentenciou a direção da geradora.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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