‘Velhos Bandidos’, pura diversão 

Com humor afiado, Velhos Bandidos reúne gerações de golpistas em um plano ousado que transforma crime em diversão leve e cheia de ironia

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Velhos Bandidos
Velhos Bandidos (Divulgação/Paris Filmes)

Velhos Bandidos estreou na semana passada nos cinemas de todo o Brasil, com sucesso de bilheteria e elogios da crítica especializada. O filme conta a história do casal de aposentados Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura), que planejam um enorme assalto a um banco. Porém, para que o roubo seja perfeito, eles irão precisar de um casal de jovens assaltantes. Nancy e Sid, interpretados por Bruna Marquezine e Vladimir Brichta, respectivamente, serão os convocados e os grandes parceiros do crime. O maior problema do grupo será o investigador Oswaldo (Lázaro Ramos). Esse jovem casal de golpistas apaixonados, Sid (Vladimir Brichta, de Bingo – O Rei das Manhãs, A coleção invisível, Muitos homens num só e Real beleza, filmes nos quais atuou com grande desenvoltura) e Nancy (Bruna Marquezine, de Besouro Azul, Vou nadar até você, Oitavo, Breaking through: no ritmo do coração, Xuxa em o mistério da feiurinha e Flordelis: basta uma palavra para mudar) vivem a vida aplicando golpes em idosos, vendendo-lhes passagens de cruzeiro para que, enquanto os clientes estejam fora, os dois promovam a limpa em suas casas. Essa dupla fez exatamente isso com Rodolfo (Ary Fontoura) e Marta (Fernanda Montenegro), porém, por uma infeliz coincidência – para os jovens assaltantes – o casal de idosos acabou voltando para casa mais cedo, pois se esqueceram dos passaportes, e flagrou Sid e Nancy roubando o cofre da casa em que vivem. O que os jovens não imaginavam era que Rodolfo e Marta também fossem golpistas, e, reféns na mão dos criminosos experientes, se vissem obrigados a embarcar no maior crime já cometido por eles: assaltar um grande banco. Integram ainda o elenco Vera Fischer, Nathalia Timberg, Reginaldo Faria, Tony Tornado, Laila Garin, Guida Vianna e Hamilton Vaz Pereira.

Velhos Bandidos é dirigido por Claudio Torres, filho de Fernanda Montenegro, que soube, com talento, humorizar as tendências nacionais, enquanto filma como um cinema americano publicitário em seus conhecidos exageros e com a participação de um elenco verdadeiramente estrelado. A fotografia saturada e o tom moralizante, em um drama no limiar da ironia e da farsa, ainda que dependendo de uma câmera lenta e de um close-up novelesco – digno dos antigos folhetins – é uma mistura do cinema clássico ainda no Brasil e o engajamento estilístico dos Estados Unidos. A música de Louis Armstrong “What a Wonderful World”, cantada e interpretada lindamente por Marisa Monte ao final do filme, retrata bem o tema irônico e irreverente desta película.

Torres, criativo, ainda preserva uma certa inocência, ainda mais quando deixa os atores mais experientes e sempre extraordinários como Fernanda Montenegro e Ary Fontoura transformarem o texto em disfarce para os seus assaltos. Bruna Marquezine e Victor Brichta se tornam aprendizes, ajudando no desenvolvimento dos quatro personagens em retroalimentação de atuação cômica e dramática. O resultado é espetacular.

Brichta, 50 anos, é conhecido por sua versatilidade e habilidade em interpretar personagens complexos, tendo recebido vários prêmios por suas atuações. Já Marquezine, que começou a trabalhar aos 6 anos, atualmente com 30 de idade, tem atuado não somente no cinema, como também na televisão.

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Os trabalhos de Fernanda Montenegro, primeira brasileira ser indicada ao Oscar de Melhor atriz; de Ary Fontoura; da diva Vera Fischer, sempre bela; de Tony Tornado; de Reginaldo Farias; de Nathália Timberg, que está festejando nove décadas de uma magnífica e irretocável carreira; de Lázaro Ramos, agora no ar na novela “Nobreza do amor”, interpretando o vilão Jendal; e de Hamilton Vaz Pereira, conhecido por liderar o grupo teatral “Asdrúbal trouxe o trombone”, nos anos 70; e dos demais atores, todos com  performances elogiáveis, sequer precisam ser mencionados, pois são por demais conhecidos e aplaudidos pelo público, sejam esses trabalhos levados nas telinhas, nos palcos ou nas telonas.    

Claudio Torres faz uma comédia com a sua marca, se alinhando ao entretenimento do cinema nacional da nova era de influência do streaming, agregando grandes atores que, no final, ressoam para o público a qualidade das cenas de comédia, principalmente. Eles são o que vão levar o público para assisti-lo. Bruna e Brichta entram nessa vibe, só que por baixo dos idosos famosos da novela e do cinema.

Trata-se de uma muito boa chanchada, que faz os telespectadores rirem e, ao mesmo tempo, aplaudirem os atores que aparecem na telona, destacando as interpretações de Fernanda Montenegro, Nathália Timberg e Tony Tornado, todos eles com 96 anos de idade; Ary Fontoura, com 92; e Reginaldo Faria, com 88. Aliás, esse filme vem bem a calhar neste momento, quando os idosos são desrespeitados e não valorizados e as televisões têm restringido a participação de atores mais velhos, veteranos, e, por consequência, mais experientes, em face dos jovens nem sempre bons e talentosos, como se pode observar no momento vivido nas novelas. Aliás, o experiente e apreciado dramaturgo Aguinaldo Silva, 88 anos, voltou a escrever novelas, para salvar o horário nobre da Rede Globo. “Três Graças” é sucesso e acaba de ser eleita o melhor folhetim do ano, assim como Murilo Benício e Grazzi Massafera, da mesma novela, eleito os melhores atores. Esse resultado mostra o vigor e o talento de Aguinaldo.

A comédia é certamente o gênero mais querido no Brasil. Não é achismo, é um fato e os números de bilheteria dos filmes do gênero são geralmente os maiores do circuito exibidor. Diante desse cenário, imagina o que aconteceria se alguém tivesse a brilhante ideia de reunir, em uma mesma produção, dois dos maiores e mais longevos artistas do cenário brasileiro, Fernanda e Ary como protagonistas, para fazer uma comédia. Claudio Torres teve essa ideia e o resultado é simplesmente espetacular.

A leveza, a agilidade e a facilidade com que o elenco conduz “Velhos Bandidos” delicia o público e entrega o melhor cinema, estilo “pipocão” nacional produzido nos últimos anos, e é, de longe, a melhor comédia brasileira desse mesmo período. Uma grande produção com uma proeza dupla: a de entregar o melhor dos melhores atores brasileiros ao público e entregar igualmente um grande filme e uma grande homenagem a esses atores que merecem ser sempre lembrados e homenageados pelo audiovisual.

Velhos Bandidos é diversão, do começo ao fim, para todas as idades e deixa uma gostosa sensação de reunião familiar. No final, os quatro bandidos ficam unidos e os mais velhos e experientes ainda fazem e deixam um testamento para os mais novos, dando-lhes seus bens, acumulados muito provavelmente com tantas trapaças e roubos. Certamente, Nancy (Bruna Marquezine) realizará seu sonho de viver na distante e paradisíaca Bora-Bora…

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