Vendendo ilusões para entregar o patrimônio público

Por Ricardo Maranhão.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, vem prometendo, com alarde, um “choque de energia barata”. Guedes, que nada entende de petróleo, não se cansa de criticar, de atribuir ao “monopólio da Petrobrás” e à ação do Estado na economia todos os males do país.

Promete reduzir, em 40%, o preço do gás natural e, à metade, o valor pago pelos consumidores de GLP, o gás liquefeito de petróleo, mais conhecido como “gás de cozinha” ou “gás de botijão”.

Promessas sedutoras, cativantes. Afinal, quem não deseja pagar menos pelo que consome? Sobretudo os milhões de consumidores dos botijões de GLP, com 13kg, produto de amplo consumo no país, especialmente pelas populações de baixa renda, sacrificadas por uma política de preços cruel, entreguista, para os combustíveis, inaugurada por Pedro Parente e Ivan Monteiro, ex-presidentes, que tem sequência na gestão do atual presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco.

 

Medidas da ANP concentrarão

distribuição de gás em grandes corporações

 

Esta política tem por objetivo viabilizar a entrega de metade do parque de refino da Petrobrás ao capital estrangeiro, aprofundando a absurda desnacionalização de nossa economia, que Guedes promete “abrir”, como se fechada estivesse.

Promessas tentadoras, uma venda de ilusões, quando considerados fatos e números divulgados por órgãos oficiais. Em Nota Técnica que pode ser acessada aqui, a Aepet – Associação dos Engenheiros da Petrobrás, entidade de 58 anos, mais de 5.700 associados, que representa o corpo técnico do Sistema Petrobrás, mostra a inviabilidade dessa proposição demagógica e inexequível. Ao contrário, as privatizações já realizadas, e outras pretendidas por Guedes, com a entrega de ativos da Petrobrás a grupos estrangeiros, certamente elevarão os preços.

Consideremos o botijão de GLP com 13kg. O diretor-geral da ANP, Décio Oddone, informa que o produto custa R$ 26 nas refinarias. Os tributos somam R$ 12. Teríamos, portanto, um custo de R$ 38. O diretor da ANP afirma que o produto chega aos consumidores, na média, por R$ 70, não sendo raros os mercados onde os consumidores pagam R$ 100.

Em 5 de agosto de 2019, a Petrobrás reduziu o preço na refinaria para R$ 24. Logo, o custo ex-refinaria, com os tributos, passa para R$ 36. De R$ 36 para R$ 70 temos uma margem de, 94,44%, a ser dividida entre distribuidoras e revendedores. Para R$ 100, a margem seria de 177,77%!

As distribuidoras de GLP são algumas, mas quatro delas (Grupo Ultra, Liquigás, Grupo Supergasbrás e Nacional) controlam quase 85% do mercado, fortemente concentrado. Os revendedores são 4.800, pequenos e médios empresários brasileiros, aos quais à Constituição Federal determina (Artigo 170, Inciso IX) seja dado tratamento preferencial, considerada a importância dos mesmos para a economia nacional.

E qual o remédio adotado pela ANP para reduzir os preços? Simplesmente a revogação dos artigos 36 (Resolução 49/2016) e 27 (Resolução 51/2016), que vedavam a venda direta ao consumidor pelas distribuidoras.

É fácil imaginar o que ocorrerá. As distribuidoras, de porte muito superior ao dos revendedores, comprando o GLP a preços de refinaria, mais baixos, irão aniquilar centenas de revendedores brasileiros, destruindo milhares de empregos. Isto, quando temos mais de 12,8 milhões de desempregados e cerca de 27,6 milhões de subocupados.

Temos mais. Também em 5 de agosto de 2019, a Petrobrás decidiu praticar, para os botijões de 13kg, o chamado “preço de paridade de importação”. Ou seja, o consumidor brasileiro, de baixa renda, com IDH muito inferior aos dos países ricos, vai pagar preços internacionais, acrescidos de fretes, seguros, custos portuários, sujeitando-se, ainda, à volatilidade do câmbio e a riscos geopolíticos sobre os quais não tem qualquer controle.

Tenho convicção de que a democracia é a divisão de todas as formas de poder. Poder político, militar, da mídia e, naturalmente, poder econômico. Não será concentrando o poder econômico em grandes corporações que vamos aumentar a concorrência e melhorar a vida dos consumidores.

Ricardo Maranhão

Engenheiro, ex-deputado federal (PSB-RJ), é diretor da Aepet – Associação dos Engenheiros da Petrobrás e conselheiro do Clube de Engenharia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigos Relacionados

Últimas Notícias

Internação por câncer de próstata cai 16% durante a pandemia

Número de hospitalizações para diagnóstico e tratamento na saúde suplementar reduziu de 14 mil para 11,7 mil de 2019 para 2020.

Black Friday: 53% afirmam que compras serão pelo celular

Três produtos por pessoa é a média de itens que serão adquiridos; 18% só começaram a fazer compras pelo celular durante a pandemia.

Relatório Mensal da Dívida Pública

Resultado primário foi acima do observado em setembro dos últimos quatro anos.

Agrotóxicos: mais de 100 entidades lançam nota contra decreto

Por meio do Decreto 10.833/2021, regulamentação sobre uso e registro de agrotóxicos foi alterada sem participação do Congresso e da sociedade civil.

Material de construção: otimismo moderado em outubro

Pesquisa aponta perspectivas positivas no último trimestre.