Vidraça

“Ao tomar sua primeira medida econômica de maior importância para nosso país, a equipe econômica do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva agiu exatamente como a equipe econômica do governo anterior, cuja insensibilidade social sempre criticamos.” Assim começa a nota divulgada ontem por Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical – arqui-rival da CUT. Na mesma linha bateram integrantes do PSDB e da ala tucana do PMDB. O PT poderia ter passado sem essa.

A desculpa da vez
Num exercício da razão cínica de que falava o sociólogo polonês Peter Sloterdijk, os mesmos beneficiários dos gordos lucros proporcionados pela queda do real em relação ao dólar nos meses que antecederam à eleição passaram a produzir alucinações retóricas para justificar a escalada altista que os cevava. Para Sloterdijk, a razão cínica consistia no exercício da hipocrisia do bom-mocismo pela ideologia oficial para dissimular seu caráter perverso. Os beneficiados pela escalada do dólar a atribuíam à alta ou à baixa de candidatos nas pesquisas, à não adesão dos partidos à política econômica de Malan ou a tombos da Bolsa de Marte, entre outros fenômenos esotéricos.
Mais prático do que a consulta aos babalorixás do mercado, um exame do gráfico do câmbio mostra que a disparada do dólar teve início no fim de maio, quando o Banco Central deu um calote nos aplicadores de fundos de renda fixa e DI. No fim daquele mês, a moeda norte-americana estava cotada em cerca de R$ 2,50. Na semana seguinte, já saltara para perto de R$ 2,70, uma alta de 8%.
Passada a eleição, os mesmos criadores de “lulômetros” e esquisitices semelhantes forjam a versão de uma suposta lua de mel com o mesmo governo que não queriam no poder para teorizar sobre a baixa do dólar. Com a chegada dos vencimentos de papéis atrelados ao câmbio, a cada véspera dessa data, na qual se decide o valor a ser pago, a moeda norte-americana ensaia nova escalada.
Como se vê, os lucros continuam gordos, os beneficiários, os mesmos. Somente a desculpa da vez foi modificada. Agora, é a “reforma” da Previdência.

Origens
O discurso do presidente do BNDES, Carlos Lessa, em sua posse, sexta-feira, ainda repercute. Para o vereador Ricardo Maranhão (PSB-RJ), Lessa “deixou claro que o banco voltará às origens, já que foi transformado numa máquina de privatizar”. Maranhão ressaltou as promessas de investimento em infra-estrutura e programas de inclusão social.
Já o presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea-RJ) Reynaldo Barros, classificou a fala de Lessa como “discurso de estadista”. Para ele, Lessa será capaz de ajudar a “exorcizar o neoliberalismo.
Já o professor da Cepal e do Instituto de Economia da UFRJ Carlos Medeiros destacou que “a transição institucional, em termos de projetos de desenvolvimento, começa pelo BNDES”. Porém, seu colega da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Conselho Regional de Economia (Corecon-RJ) Vitor Hugo Klagsbrunn diz acreditar que o banco terá problemas para gerar empregos no país. “O principal gerador de empregos é a pequena e média empresa e o BNDES vai encontrar na pouca capilaridade uma barreira”.

Wall Street
O membro do conselho editorial do MM e funcionário do BNDES Maurício Dias David salientou que serão os bancos comerciais e estatais como BB e CEF os encarregados de operar os financiamentos do BNDES às micro e às pequenas empresas. “O discurso foi de esperança e fé no Brasil e a repercussão foi imensa. Estávamos sendo massacrados, como um banco tipo Wall Street”, criticou David, lembrando que boa parte das exportações da Itália provêem das pequenas e das médias empresas.
“Crescer distribuindo renda e incluindo socialmente será o eixo da retomada do desenvolvimento. Além disso, haverá um esforço exportador que demandará a recomposição de cadeias produtivas que foram entregues ao vendaval neoliberal nos últimos oito anos”, acrescenta o diretor do Instituto dos Economistas (Ierj) Nelson Le Cocq.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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