A situação insuportável de violência no Timor Leste interessa a nós, brasileiros, de uma maneira particular, porque ali se abriga a última “ilha lingüística” do idioma português no Sudeste do Pacífico.
Uma onda de extrema violência está mergulhando no caos, esta antiga colônia portuguesa, invadida e anexada à Indonésia em 1975, e que desde então vive em clima de convulsão.
Nessa área salpicada por milhares de ilhas, na sua maioria constituindo, hoje, a República da Indonésia, o Timor ladeia a passagem oceânica para a Austrália e a Nova Guiné.
Após muita disputa o governo de Jacarta concordou que a população do Timor de Leste, núcleo cultural da antiga colônia portuguesa, realizasse um plebiscito para se manifestar se queria ser independente ou se anexar à Indonésia. Realizada a 30 de agosto último, está consulta plebiscitária deu como resultado uma vitória estrondosa da causa da independência: 78% dos votos. Este resultado não está sendo aceito pela minoria perdedora, que apoiada por milícias para-militares, passou a contestar o veredicto eleitoral, espalhando ameaças à população e desencadeando brutal violência no país. A violência das milícias tem sido apoiada, ou pelo menos ignorada, pelas forças do Exército indonésio destacado para a região a fim de fazer valer o compromisso do Presidente Habibie, de respeitar a vontade dos timorenses do Leste, expressa na opção pela independência. Recentemente o governo de Jacarta colocou em liberdade o principal líder independentista do Timor Leste, Xanana Gusmão, buscando abrir um clima conciliatório, que em nada resultou.
A incapacidade político-militar do governo de Jacarta em conter a violência das milícias anexionistas contra a maioria favorável à independência, é avaliada pelos analistas internacionais como a conseqüência da profunda crise política por que passa o país. As divergências entre o Presidente Habibie e os chefes militares liderados pelo Ministro da Defesa, General Wiranto, vem aumentando desde o termino da ditadura de Suharto, que governou o país por cerca de 30 anos. Os chefes militares declaram-se preocupados com a onda de desintegração que ameaça este país formado por mais de 10.000 ilhas: temem que, cedendo no Timor, outras áreas se incendeiem.
Por outro lado, estas dezenas de anos que os patriotas timorenses vem enfrentando, em flagrante desigualdade de forças, as milícias indonésias, trouxeram ampla simpatia internacional para a sua causa. Prova evidente disto é que nos últimos anos dois valorosos líderes da causa da independência, o bispo Don Carlos Ximenez Bello e o advogado José Ramos Horta, foram agraciados com o prêmio Nobel da Paz, ante o protesto de instituições indonésias que representam uma população de 200 milhões de habitantes, da qual nenhum cidadão conquistou igual galardão.
Cada dia que passa torna-se mais evidente a incapacidade do governo de Jacarta de assegurar a ordem e a paz no Timor Leste. Há um apelo cada vez mais generalizado para que uma Força Internacional de Paz ocupe a região conflagrada. O Conselho de Segurança da ONU não se revela propenso a intervir, a não ser que o governo de Jacarta solicite. Portugal e os países da região, Austrália e Nova Zelândia, insistem na necessidade urgente e inadiável de uma intervenção e declaram já possuírem efetivos militares prontos para embarcar. Os Estados Unidos condenam as violências, não se mostram favoráveis a um engajamento de suas forças, mas apoiam a intervenção dos australianos. O Vaticano, que estava encolhido, agora classifica a mortandade e brutalidades cometidas de crime de genocídio e pede a urgente intervenção da ONU.
E o Brasil? Nossa diplomacia não havia se sensibilizado pelo problema, apesar dos apelos do ex-embaixador brasileiro em Lisboa José Aparecido e das solicitações do líder independentista José Ramos Horta em visita especial a Brasília. Nosso embaixador em Jacarta, Jadiel Oliveira, respondendo a ligação telefônica do Jornal do Brasil, há dias passados, retratou assim a situação desesperadora: “As milícias destruíram os sistemas de água, luz e telefone; falta comida e não há condições para nada. A única saída é a interferência de uma Força de Paz das Nações Unidas”. Agora, “depois da porta arrombada”, o Itamarati resolveu se comover, pediu uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU. Ao mesmo tempo nosso governo recebe uma consulta da Austrália, sobre a possibilidade da participação de um contingente militar brasileiro na força que as autoridades de Canberra estão organizando.
Não é de esperar que o governo de Jacarta ainda tenha condições de controlar a situação e impor a ordem no Timor Leste. O envio de uma força internacional de paz para a região parece inevitável.
Carlos de Meira Mattos
General reformado do Exército e Conselheiro da ESG















