Após a eleição do socialista François Hollande na França e o crescimento da insatisfação com a “expansão da austeridade” defendida pela chancelar alemã Angela Merkel, pode-se, enfim, vislumbrar alguma inflexão na condução dos assuntos econômicos na Europa.
Muitos analistas apontam que estamos vivendo a repetição de um debate travado na década de 1930, com a diferença de que existem atualmente disponíveis diversos estudos sobre aquele período e que poderíamos ter aprendido mais com o tempo. Não parece ser esse o caso. Deve-se reconhecer, entretanto, existirem grandes interesses imersos nessas questões.
Andrew Mellon, secretário do Tesouro de Herbert Hoover, não poderia ter encontrado melhor discípula pós-moderna do que a senhora Merkel. Em 1936, Keynes afirmou que “os dois principais defeitos da sociedade econômica em que vivemos são a sua incapacidade para proporcionar o pleno emprego e a sua arbitrária e desigual distribuição da riqueza e das rendas”. Essas palavras são muito atuais.
Nos EUA, a principal dinâmica da economia por 30 anos tem sido a divergência entre o crescimento da produtividade e os salários dos trabalhadores comuns. Esta divergência tem sido cada vez mais reconhecida como uma das causas do crescimento das desigualdades das rendas. Nem mesmo durante o boom econômico os frutos foram repartidos equitativamente; a maré econômica baixou e alguns barcos maiores simplesmente flutuaram no ar, desafiando a lei da gravidade.
Enquanto isso, na Europa, o Estado de bem-estar social luta para sobreviver. Nesse contexto, já se menciona o fim do euro e as prováveis consequências dos retornos das moedas nacionais. Tudo indica que esse processo será iniciado na Grécia e depois se espalhará por Espanha, Portugal e Itália e, quem sabe, chegará à França. Seria esse um cenário inimaginável? As democracias políticas de bem-estar social não combinam com padrões monetários rígidos do tipo ouro e políticas fiscais impotentes.
Os desdobramentos dependerão da Alemanha, superavitária em sua conta corrente em relação à eurozona. Esta, por sua vez, sabe muito bem o que é ser constrangida por um endividamento externo e não ter os meios para dar respostas políticas satisfatórias ao seu povo. A Alemanha deveria ser a locomotiva do euro e executar o papel de retirar a zona da crise pelas vias de sua demanda interna e da organização de transferências internas à união monetária de recursos fiscais comuns. O Banco Central Europeu teria que funcionar como um emprestador de última instância para os governos em dificuldades.
Não parece que esse será o caso. Infelizmente, os alemães pretendem impor aos devedores as dores do ajuste, que não pode ocorrer por desvalorizações cambiais. Sobra então a opção de reduzir salários e direitos trabalhistas, isto é, atacar as políticas de bem-estar social. Idéias ultrapassadas baseadas na Lei de Say (economia do lado da oferta) sustentam que esse deve ser o caminho racional da eurozona. Essas idéias conservadoras ganharam força com as ascensões de Reagan e Thatcher e ainda integram partes dos discursos dos respeitáveis formuladores de políticas públicas.
Não é preciso muito esforço para se constatar que a oferta não é capaz de gerar sua própria demanda em uma economia monetária, pois a incerteza em relação ao futuro faz com que os indivíduos tenham basicamente três motivos para entesourar recursos financeiros: precaução, transação e especulação.
Sabemos também que historicamente o capitalismo comporta crises de superprodução e excessos de capacidades produtivas ociosas. O pleno emprego dos fatores de produção não é automaticamente garantido em um regime de laissez-faire.
No que diz respeito ao Brasil, deve-se observar que a chegada do investimento estrangeiro direto entre 2010 e 2011 para novos projetos encolheu 56%. Globalmente, o investimento estrangeiro direto se deslocou para fusões e aquisições no período. Tal fato sinaliza que o próprio sistema capitalista está buscando regular a concorrência novamente, liberando inclusive trabalhadores que terão grandes dificuldades em arrumar nova ocupação com nível semelhante de remuneração.
Qual seria o limite desse processo de concentração e centralização do capital? Essa é uma pergunta difícil de responder, mas sabe-se que não há garantias de que o sistema capitalista retorne automaticamente a um estado de pleno emprego e bem-estar.
Do ponto de vista do fôlego do modelo vigente de crescimento brasileiro, deve-se ponderar que há a expectativa de que os preços da maioria das commodities caiam 15% no próximo ano, em parte devido ao enfraquecimento da demanda da China. Tal fato, se confirmado, agravaria os termos de troca da economia brasileira, afetando negativamente o crescimento do país e muito provavelmente os alicerces do presidencialismo de coalizão presente.
Chegou o momento da política e dos estadistas. Seria esta a hora de se jogar de lado as idéias ultrapassadas que se pretendem científicas e neutras num mundo de grandes assimetrias sociais, econômicas e regionais? O tempo dirá.
Rodrigo L. Medeiros
D.Sc., integra a World Economics Association (WEA).
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