Visibilidade negra

Por Marcos Espínola.

Constituição de 1888 aboliu a escravidão, mas não eliminou segregação

 

A posse de Gilberto Gil como membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), o terceiro negro a ocupar uma cadeira na Casa, é cercada de significados para uma sociedade que ainda se depara com atos inadmissíveis como o recente episódio clássico de racismo num Shopping do Rio, quando um homem proferiu ataques racistas contra uma professora e seu sobrinho. É a visibilidade negra em pleno ano de 2022, tanto de forma positiva quanto negativa, porém, infelizmente, a segunda é mais recorrente, deixando claro o racismo estrutural no país.

E se engana quem classifica essa fala como mimimi, pelo contrário, é fato que não só o Brasil tem uma dívida histórica com os negros pelos anos de escravatura, como também, ainda hoje, acumula evidências de discriminação que persiste, machuca e coloca os negros num lugar inferior injustificável, mesmo sendo eles mais de 50% da população.

A Constituição de 1888 aboliu a escravidão no país, mas foi insuficiente para acabar com a segregação e preconceito. Não são poucos os episódios de agressão a negros em todos os segmentos, classes sociais e em toda a parte. Nosso mapa social fala por si só. Na classe política, por exemplo, a estimativa é que apenas 3% do quadro legislativo seja composto por negros. No ambiente acadêmico é notório o baixo número de pesquisadores, professores e alunos negros, o que nos levou a contar com a lei nacional de cotas, que divide opiniões, pois nem todos a consideram uma forma de adequar à realidade social e etnográfica, os meios de acesso ao ensino superior público.

No esporte são diversos os episódios de racismo, mesmo no futebol, o mais popular do mundo. Nas redes sociais são incontáveis os conteúdos ofensivos e discriminatórios tendo o negro como alvo gratuito. São eles também que no sistema carcerário predominam. Segundo o 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, dos presos em que há a informação da cor/raça disponível, 70% são negros. E são eles também as maiores vítimas das mortes violentas no país.

A chegada de Gil à ABL significa muito para a classe artística, pois é o primeiro músico da MPB a chegar lá. Mas, assim como a Ketanji Brown Jackson, confirmada pelo Senado dos EUA como a primeira mulher negra a ocupar uma vaga na Suprema Corte americana, essa conquista vai além. Deixa claro que é através da educação que podemos mudar essa história de preconceito no mundo todo, conscientizando as novas gerações de forma direta que em vez de racismo é preciso empatia com o próximo, independentemente de sua cor de pele.

É perceber a visibilidade negra como legítima e com todo o respeito que qualquer indivíduo merece.

 

Marcos Espínola é advogado criminalista e especialista em segurança pública.

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