“Viúvas” de 64

Incomodados com a política externa independente brasileira, o cartel dos “jornalões” tupiniquins “plantou”, de forma coordenada, a informação sobre a suposta resistência de setores militares ao ministro Celso Amorim. É caso típico de projeção, no qual confundem seu DNA golpista com o comportamento das atuais lideranças militares, sem qualquer vínculo com seus antecessores da guerra fria. Já esse tipo de jornalismo, diferentemente de vários outros segmentos, inclusive do campo conservador, que evoluíram para o convívio democrático, não conseguem romper os laços umbilicais com as práticas golpistas e com sua retórica paranóica.

Reforço duplo
Ao trocar Nelson Jobim por Celso Amorim no Ministério da Defesa, a presidente Dilma fez um gol de placa. Além de tirar um tucanão do governo cujos conhecimentos sobre a área militar restringiam-se a factóides, como o uso de uniformes de campanha, para simular o papel de comandante em chefe, a presidente emplaca um dos ministros mais altivos do governo Lula e dos raros homens públicos com visão estratégica.

Dicotomia
O aprofundamento da crise na Zona do Euro expõe a baixa sincronia entre a política institucional e o setor econômico-financeiro na construção da União Européia (UE). A avaliação é do especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 Paulo Kliass. Em artigo no site da Agência Carta Maior, Kliass historia o processo de criação da UE, destacando que os países mais industrializados, como Alemanha e França, ao optarem pela ampliação geoeconômica do bloco, buscaram a integração de nações menos desenvolvidas, como Grécia, Espanha e Portugal. O especialista destaca que, nesse primeiro momento, os instrumentos de política regional serviram para nivelar o bloco por cima, constituindo fundos financeiros para garantir a redução das diferenças entre países: “Aproveitando-se de um período de recursos orçamentários abundantes proporcionados pela atividade econômica promissora, os valores puderam ser direcionados para os países recém ingressantes, bem como para as regiões menos desenvolvidas dos países que iniciaram o processo da unificação”, observa.

Autonomia restrita
Kliass acrescenta, porém, que simultaneamente à melhora das condições econômicas e sociais dos primos pobres da UE, os órgãos centrais europeus passaram a fixar regras de conduta fiscal e econômica para as nações da Zona do Euro que reduziam a autonomia dos países: “Como os países deixavam de operar com suas próprias moedas nacionais e passavam a utilizar o euro como referência monetária, entrava em cena a necessidade de estabelecer controles sobre variáveis importantes em termos macroeconômicos, como o nível de endividamento público e as condições do equilíbrio fiscal. Afinal, os gastos eram definidos pelos governos/Parlamentos de cada nação soberana, mas as contas poderiam ser todas debitadas à UE, que passou a deter o poder de emissão da moeda supranacional. A situação era inusitada e desafiadora: países sem moeda nacional e uma nova moeda sem que houvesse um país responsável por sua emissão”, analisa.

Choque de realidade
Os limites adotados para condicionar o acesso aos benefícios sociais e econômicos da UE, porém,  representaram um engessamento do crescimento, como a fixação em 60% da relação dívida pública/PIB, e em 3% o déficit público. E, diferentemente dos Estados Unidos, a UE, observa Kliass, embora tenha um banco central – o BCE, responsável pela emissão da moeda comum – não tem um organismo semelhante ao Tesouro regional, para colocar títulos da dívida pública européia. Como se viu, a realidade atropelou a camisa de força fiscalista, situação agravada pela eclosão da crise global, que resultou no aprofundamento da recessão na região, que elevou o desemprego e derrubou a arrecadação: “Em situações como essa, normalmente o Estado é chamado a gastar mais na área social e mesmo na infra-estrutura, até como forma de estimular a superação da crise no futuro. E isso implica elevação do endividamento público e maior nível de gastos orçamentários em relação às receitas. Ou seja, maior déficit fiscal”, analisa, acrescentando “ter ficado demonstrado que as sugestões de ajustes da ortodoxia não resolveram os problemas dos países que assim procederam nos últimos anos. Pressionar Irlanda e Grécia a seguirem estritamente a já surrada cartilha de privatização de empresas públicas, cortes orçamentários em áreas sociais e infra-estrutura, combinado a demissão de funcionários públicos e endurecimento das regras de previdência, dificilmente vai solucionar os problemas de tais países”.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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