Viva, Professor Carlos Lessa!

Por Darc Costa e Daniel Kosinski.

Opinião / 17:26 - 3 de jul de 2020

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Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa – para nós, o nosso querido e inesquecível Professor Carlos Lessa – foi muito mais do que um dos maiores economistas e acadêmicos brasileiros do seu tempo. Tal qual ele próprio, com a generosidade que sempre lhe foi marcante, se referiu uma vez a Celso Furtado – outro insubstituível campeão da nossa nacionalidade – Lessa foi “um brasileiro com B maiúsculo”.

Nascido no Rio de Janeiro no dia 30 de junho de 1936, Lessa se formou economista pela então Universidade do Brasil em 1959. No ano seguinte, concluiu mestrado em Análise Econômica pelo Conselho Nacional de Economia. Pouco depois, tornou-se professor do Instituto Rio Branco, ajudando a formar os quadros da diplomacia brasileira. Era apenas um pouco mais velho que os seus alunos, mas já incutia neles os sentimentos que melhor caracterizam o seu pensamento e toda a sua trajetória de vida: a paixão pelo Brasil, pelo seu povo, pela sua cultura; a vontade irrefreável de pensar, discutir e encontrar soluções para os problemas que desde então já afligiam a nacionalidade.

Em seguida ao golpe de 1964, num raro momento de desesperança quanto aos rumos do Brasil, refugiou-se no Chile, tornando-se professor da Cepal – a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, da ONU – e da Universidade do Chile. Não demorou, contudo, a retornar para a terra que amava e, a partir de 1968, colaborou para a fundação do Instituto de Economia da Unicamp. Lá, formou-se doutor em 1976 e foi professor entre 1979 e 1994, a considerando a sua “segunda casa”.

Segunda, é claro, porque a primeira, inconteste, era a UFRJ. Tornou-se seu professor em 1978 e, em 2002, durante uma das maiores crises da história da instituição, foi eleito seu reitor em rara eleição consagradora, recebendo ampla maioria dos votos dos seus colegas docentes, dos técnicos e alunos. Também lecionou na Universidade Federal Fluminense, registrando assim as suas digitais na formação de três dos principais centros do pensamento social e político brasileiro contemporâneo.

Na política e na administração pública, Lessa também deixou a sua marca indelevelmente nacionalista. Nos anos 1980, foi assessor do então presidente do PMDB, Ulysses Guimarães, e dirigiu o Finsocial, a área social do BNDES, a mais importante instituição do tipo no hemisfério sul e, sem dúvidas, uma das mais importantes em todo o mundo.

Na década seguinte, mudando-se para o Cosme Velho, assumiu a liderança da associação de moradores do bairro, promovendo a urbanização das comunidades do Cerro Corá e dos Guararapes. Com essa experiência, quando assumiu o Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro, lançou o programa Favela-Bairro. Na mesma época, presidiu o Instituto Virtual de Economia do Rio de Janeiro, deixando muitas propostas para revitalizar a produção e as finanças do estado. Escreveu também o livro Rio de Todos os Brasis, no qual declarou o seu amor pela sua cidade natal.

Em 2003, no primeiro mandato do ex-presidente Lula, Lessa retornou ao BNDES – dessa vez, para presidi-lo. No comando da instituição, procurou imprimir à sua atuação um caráter marcadamente nacionalista e desenvolvimentista, privilegiando o desenvolvimento das forças produtivas nacionais e do trabalho nacional.

Livrou a instituição do papel humilhante de financiar privatizações que lhe havia sido conferido pelo desastroso governo Fernando Henrique Cardoso. Resolveu o caso AES em franca e corajosa oposição às pressões estadunidenses. Comprou ações da Vale do Rio Doce, mantendo o seu controle acionário majoritariamente nacional. Em suma, devolveu o banco ao seu devido lugar: o de promotor do desenvolvimento e da soberania nacional. De quebra, realizou operações que proporcionaram à instituição, nos anos subsequentes, os seus melhores resultados contábeis até hoje.

Dessa forma, Lessa agiu em completa consonância com os ideais que ensejaram a criação da instituição. Todavia, para a sua surpresa e decepção, teve problemas. Em necessário confronto com a “ala neoliberal” daquele governo, capitaneada pelos ministros Antonio Palocci e Luiz Fernando Furlan, e pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, Lessa foi “fritado” pela grande imprensa, que o “demitiu” dezenas de vezes.

Afinal, em novembro de 2004, acabou de fato afastado do cargo. Um fato demonstrativo da opção feita por Lula naquela ocasião e dos interesses que acabaram prevalecendo no seu governo e nos que o sucederam, cujos resultados, hoje, são de amplo conhecimento público.

Apesar desse revés, e embora profundamente marcado pela injustiça que julgou ter sofrido, o Prof. Carlos Lessa jamais abriu mão das suas posições ou se afastou dos seus ideais. Manteve, até o fim da sua vida, uma confiança inabalável no Brasil, uma admiração apaixonada pela cultura brasileira em todos os seus aspectos, uma crença irremovível num futuro próspero, justo e pacífico para esse país e para o povo brasileiro.

Foram esses valores que ensejaram a sua iniciativa, ainda na qualidade de presidente do BNDES, de organizar a elaboração da Enciclopédia da Brasilidade, uma verdadeira ode ao Brasil, a tudo o que nós, brasileiros, fazemos, e a tudo o que somos.

Nesse mesmo espírito, preocupou-se com as universidades brasileiras, que considerou sob crescente pressão e influência de temáticas, valores e preocupações estrangeiras, pouco conectadas com os nossos problemas e valores, com as nossas particularidades históricas, políticas e sociais. Assim, idealizou a formação de um grupo de debates, seminários, exposições, enfim, tudo aquilo que agregasse brasileiros preocupados com os rumos do país, para discutir e falar do Brasil e da brasilidade. Seu principal objetivo era formar jovens quadros universitários imbuídos desse espírito, devolvendo o Brasil e as suas questões para o centro das atividades na academia.

Prontamente, Lessa recrutou e organizou um primeiro grupo de estudantes de pós-graduações da UFRJ para discutir os chamados “intérpretes do Brasil”, os textos fundadores da nossa “mitologia nacional”, como Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda, e Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, apenas para citarmos três exemplos fundamentais.

Em meados de 2017, esse grupo começou a se reunir regularmente na antiga Escola de Cinema Darcy Ribeiro. No ano seguinte, já nomeado Instituto da Brasilidade e sediado num belíssimo casarão no Cosme Velho, passou a promover debates semanais nos quais Lessa, sempre que a sua já fragilizada saúde o permitia, comparecia para dissertar sobre os mais diversos temas brasileiros: história, sociedade, política, cultura, economia, música, gastronomia e até botânica. Enfim, sobre o Brasil em suas múltiplas dimensões, sobre o povo brasileiro, sobre a brasilidade que tanto o apaixonava, sempre nos ilustrando com a perspectiva holística, multidisciplinar, que caracterizava a sua forma de ver o mundo e expressava a sua imensa potência intelectual.

Dessa forma, no Instituto da Brasilidade, hoje já consolidado, vivem e se perpetuam a paixão pelo Brasil, pelo seu povo e pela sua cultura, a preocupação perene com os seus destinos, que tão bem caracterizaram o pensamento e, principalmente, os sentimentos do Professor Carlos Lessa. Lá, formam-se novos estudantes, pesquisadores, professores e servidores públicos imbuídos dos ideais e do espírito da brasilidade que o Professor Carlos Lessa quis devolver às universidades brasileiras, como tudo o mais nesse país, lamentavelmente sob ataques dos mais diversos tipos nos últimos anos.

Pensando nisso, o Instituto da Brasilidade organizou 37 Seminários da Brasilidade no ano passado, cujos vídeos estão disponíveis na nossa página no YouTube. O Instituto vem organizando, também, uma série de cursos e grupos de pesquisa voltados para o público externo, cujo lançamento infelizmente foi adiado pela pandemia, que serão retomados assim que possível. E finalmente, o Instituto pretende construir uma série de eventos comemorativos do bicentenário da nossa Independência, em 2022.

Com essas palavras, deixamos registrada a nossa homenagem ao nosso querido e insubstituível Professor Carlos Lessa. Sem dúvidas, um “brasileiro com B maiúsculo” que, além de toda a sua mais do que conhecida trajetória como economista, como cidadão e como homem público brasileiro, seguramente entre os mais importantes do seu tempo, foi também o idealizador do nosso Instituto.

O Professor Carlos Lessa é e sempre será o patrono e o demiurgo – para usar uma palavra que ele tanto gostava -- do Instituto da Brasilidade.

Viva, Professor Carlos Lessa!

Viva o Brasil!

Darc Costa

Engenheiro, ex-vice-presidente do BNDES e presidente do Instituto da Brasilidade.

Daniel Kosinski

Doutor em Economia Política Internacional, pesquisador da UFRJ e membro do Instituto da Brasilidade.

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