Vocação e conflitos marcam história dos vinhos da Europa Oriental

Muitos compartilham a nobre latitude da produção vitivinícola mundial e inauguraram sua relação com o vinho muito cedo.

 

Após a indesejada convivência com o conflito entre Ucrânia e Rússia, de algum modo ficamos mais próximos e informados sobre o que se passa ou que se passou nessas regiões que constituem a Europa Oriental ou o Leste Europeu (denominação de cunho mais político-ideológico). Recentemente, apresentei Master Classes sobre vinhos de alguns desses países e percebi que existe uma grande curiosidade pelo tema.

Este interesse se dá pelo próprio desconhecimento em relação a esses universos mais distanciados da gente, mas também por estarmos numa fase de franca expansão da diversidade de vinhos mundiais, que tem como mola propulsora o perfil de um consumidor “enófilo”. Consumidores que não se contentam mais em beber apenas vinhos das regiões e uvas consagradas e que são seduzidos pelo inédito, pelo conhecimento de cepas autóctones e outros tipos de vinhos.

Sendo países europeus, muitos compartilham a mesma faixa latitudinal tradicionalmente vocacionada à produção vitivinícola, isto é, entre 30o e 50o Norte, e inauguraram sua relação com o vinho desde muito cedo: acredita-se que o marco inicial da origem do vinho tenha se dado na região do Cáucaso, hoje Geórgia, há cerca de 8 mil anos.

Os países mais colados à Europa Central apresentam muitas similaridades ao perfil vitícola da Alemanha, Áustria, Itália e foram menos tocados pela produção predominante no período socialista, em que integravam o chamado bloco da Cortina de Ferro, expressão consagrada após a construção do muro entre Berlim Ocidental e Oriental, que estabeleceu uma divisão física e, principalmente, simbólica entre os mundos capitalista e socialista. É o caso da Hungria, um dos expoentes da vinicultura da Europa Oriental, sempre respeitado, especialmente pela produção de um dos grandes ícones mundiais: o vinho licoroso Tokaji.

Croácia e Eslovênia (antes partes da Iugoslávia) são países com tradição produtiva e que apresentam atualmente franca expansão num perfil de produção que se aproxima do nordeste italiano, também banhado pelo Mar Adriático. A Europa Oriental apresenta um território bem acidentado com cadeias montanhosas importantes (Balcãs, Cárpatos, Urais), um bom sistema hídrico composto de mares (Báltico, Mediterrâneo e Negro) e rios (Danúbio e outros), além de uma diversidade de paisagens e riquezas em recursos naturais e minerais.

Alguns desses países, especialmente os banhados pelo Mar Negro, são bons produtores de vinhos e, não fosse um histórico tumultuado por múltiplas invasões, limites territoriais mutantes e longos domínios de governos ditatoriais, certamente teriam uma vitivinicultura mais conhecida. Alguns episódios favoreceram a existência e evolução do vinho, como as influências greco-romanas para o cultivo da vinha e a criação da cultura de consumo ou a força do cristianismo, que inclui o vinho em seus rituais religiosos e dá uma dimensão espiritual a este consumo.

Por outro lado, o longo domínio otomano por cerca de quatro séculos (variável, segundo regiões) fez o movimento contrário, em função do islamismo religioso. Posteriormente (séculos 18 e 19), alguns desses países começaram a cultivar uma produção com identidade própria, mas as grandes guerras do século 20 trouxeram novos enfrentamentos: o nazi-fascismo e a passagem ao regime socialista, com um evidente alinhamento à política econômica soviética, que dá novos contornos à trajetória produtiva dessas regiões.

No próximo artigo, entrarei em mais detalhes sobre a vitivinicultura desses países.

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Míriam Aguiar
Jornalista, educadora e especialista em vinhos

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