Você é ‘cringe’?

No mundo jurídico, é completamente cringe usar juridiquês, escrever errado, usar linguagem rebuscada.

Já que ainda estamos em clima de Copa América, Eurocopa e Olimpíadas, começo o texto de hoje com um “carrinho por trás”, que é uma espécie de “golpe sujo” no futebol: se você ainda não sabe o que é cringe, sinto dizer: você é cringe. Para lhe dizer na lata o que é cringe, vou usar dois termos que você conhece bem, por isso eu afirmo que você é cringe: você é brega e cafona.

Entendeu agora o que eu quero dizer? Mas, pelo amor de Deus, não diga esses termos em público, porque aí mesmo é que o pessoal vai descobrir a sua idade e o quanto você é cringe.

Digamos que você, assim como eu, tenha mais de 50 anos. Na linguagem do pessoalzinho sub-20 na internet, você é quase jurássico. Já usou gravador de fita cassete, disquete, Orkut, processador Carta Certa, videogame Atari, impressora matricial. Nem há uma classificação certa para gente como nós. Hoje em dia, esses guetos se dividem em “geração Z” e “geração Y”. Os da “geração Y”, também conhecidos como “millennials”, nasceram nas décadas de 80 até 1994. Os da “geração Z” nasceram entre 1995 e 2000. Você e eu somos dos tempos da Pangeia…

Mas, afinal, o que é cringe? O termo cringe significa mais ou menos “vergonha alheia’. É aquele estado de coisas em que gente como nós passa vergonha na internet porque foi engolido pelo avanço tecnológico que não conseguiu acompanhar. Perdemos o bonde. Nem se atreva a dizer que a gente agora “paga mico”, que isso é muito cringe. Muitos outros termos já ficaram para trás, como trolada, flopar, poser, falseane, stalker, chocou zero pessoas, mandar um locão e fada sensata, e você nem se deu conta. Por isso você se tornou cringe.

Se você parar para pensar, tem um monte de coisas cringe no que você fala, pensa, escreve, na forma como você se veste e no jeito que você é. Pagar um boleto com código de barras na boca do caixa é cringe. Hoje em dia, paga-se com pix, QR code, por aí. Se você gosta de Harry Potter, novela, BBB, Fórmula 1 ou programas de auditório você é perdidamente cringe. Já era. Passou. É um “tiozão”, expressão que, por sinal, também é cringe. Ver o Jornal Nacional ou outro jornal qualquer na tevê é cringe.

Por que alguém tem de decifrar o mundo para você se você sabe fazer isso muito melhor sozinho? E, depois, quem garante que a versão do cara da tevê é a mais fiel aos fatos? Pode haver algo mais cringe do que um sujeito de paletó e gravata (não há nada mais cringe que paletó e gravata num programa às três da tarde) tentando colonizar o outro? Novelas são declaradamente cringe, especialmente aquelas que tentam parecer politicamente corretas botando uma família num mesmo núcleo da trama em que a namorada do pai é até mais nova que a filha do pai, tem um que é contra cotas em universidades, outro que acha normal enricar sem trabalhar, um politicamente correto que acha que o síndico devia proibir cachorro no condomínio, essas coisas.

Nos e-mails e zaps que você escreve diariamente, agora é cringe escrever a palavra por inteiro, usar acentos gráficos e escrever “kkk” pra dizer que achou graça no print do coleguinha ou botar emojis nos e-mails e prints. Currículo agora se chama “portfólio”. Até usar Facebook virou cringe. Piercing no umbigo, na orelha e na sobrancelha, cabelo roxo, alargador de orelha, fitinha de Senhor do Bom Fim no pulso junto ao rolex dourado, camiseta com folha de maconha fazendo apologia ao uso ou camisa do Rock in Rio escrito “eu fui”, funk da Annita, do/a Pabblo. Deus do céu! Tudo isso é cringe.

No mundo jurídico, é completamente cringe usar juridiquês, escrever errado, usar linguagem rebuscada só para mostrar erudição, exigir ser chamado de doutor, usar gravata de crochê, anel de grau, camisa social verde ou bordô, camisa xadrez com gravata de listras, começar uma petição com “Exm° Sr. Dr. Juiz Fulano de Tal”, encher o texto de latinório barato que nem você sabe o que significa, abusar de citações estrangeiras (na língua original, para piorar), gráficos, peças com mais de cinco laudas, rapapé, ofensas, piadinhas e recortes de jornal, apelar para termos como “sodalício”, “nosocômio”, “data vênia”, “peça propedêutica”, “parquet”, “obreiro”, “meritíssimo”, “egrégio”, “prima facie”, “ita speratur Justitia” ou “todas as provas admitidas em direito” (como se fosse possível usar uma prova que não é admitida em direito, como ameaça de morte, confissão obtida com choque elétrico, tortura, coação psicológica, pentotal, etc.).

Em audiências ou sustentações orais, é cringe ser descortês, atropelar a fala do colega, pavonear, industriar testemunhas, mostrar sabedoria que não tem, desconhecer o processo, elevar o tom de voz ou ser grosseiro com o colega, com o juiz ou com os funcionários da vara ou da repartição pública.

Ok, Ok, vocês vão dizer que pensando assim eu me comporto exatamente como uma pessoa cringe. Cringe são vocês. Eu sou é fina.

Mônica Gusmão
Professora de Direito Empresarial, do Consumidor e do Trabalho.

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