‘Você não vai ver o Drex’

O Drex: o futuro da infraestrutura financeira. Saiba como a programabilidade e interoperabilidade estão transformando o setor.

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Conversamos sobre o Drex com Pedro Begotti, superintendente de Inovação do Banco ABC Brasil. Essa conversa faz parte da série de entrevistas que estão sendo feitas pelo Monitor Mercantil com especialistas de instituições que estão participando do desenvolvimento do Drex.


Qual a funcionalidade do Drex?

Está havendo uma grande confusão na cabeça das pessoas, inclusive na indústria financeira. É muita nomenclatura e as pessoas não sabem o que deve chegar nas mãos dos consumidores finais, o que é apenas infraestrutura, que vai mudar e ser mais eficiente, e o que deve ser de fato solução.

Tudo começou quando o mundo foi abalado pela chegada do Bitcoin em 2008, o que fez com que surgissem estruturas de operacionalização de dinheiro cross border, ou seja, mundiais, sem controle de um órgão centralizador como um banco central ou uma câmara de liquidação, e sem um lastro específico.

Num determinado momento da história do Bitcoin e das criptomoedas que vieram no seu arrasto, os bancos centrais perderam a capacidade de controle da política cambial, o que fez com que surgissem as iniciativas de CBDCs (Central Bank Digital Currency), pois o único jeito deles voltarem a ter controle dentro da economia digital é participando dela. Dessa forma, as CBDCs vieram como uma opção para que os bancos centrais fizessem parte dessa economia.

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Fazer parte é estar com uma criptomoeda, um criptoativo ou um ativo digital permissionado que seja interoperável. O Banco Central escolheu o Hyperledger Besu porque essa tecnologia é derivada do Ethereum, a maior rede do mundo depois do Bitcoin e que possui “n” derivações. Por exemplo, para operacionalizar a Nucoin, o Nubank utiliza uma EVM (Ethereum Virtual Machine), a Polygon.

Isso significa que todos os protocolos de contratos inteligentes para interoperabilidade da rede são comuns. O Hyperledger Besu opera com o Ethereum, que opera com o Polygon e com “n” outras redes derivadas dele, o que mostra a vontade do Banco Central em interoperar com outros ambientes de ativos digitais.

No Brasil, nós vamos adotar um modelo permissionado, com uma rede fechada, e não pública, onde o Banco Central vai controlar quem fará parte dela, e que não vai tirar a interface do cidadão com o banco. Essa rede possui uma camada que chamamos de atacado, com os bancos falando entre si e conversando com as suas contas de reserva no Banco Central. Hoje o mercado já é assim, pois nós temos o STR (Sistema de Transferência de Reservas).

O Drex vem primeiro para testar a substituição desse sistema, pois ele é uma infraestrutura de liquidação financeira, só que o Banco Central foi além. Se essa infraestrutura vai ser experimentada entre ele e os bancos e entre os bancos, ela também vai ser experimentada com os consumidores dos bancos.

O Pix é uma solução de pagamento, mas o Drex é mais infraestrutura que solução, pois as soluções ainda precisam ser criadas em cima da sua infraestrutura. Ele pode substituir a infraestrutura do Pix, o SPI (Sistema de Pagamentos Instantâneos)? Sim, ele pode fazer isso, inclusive com mais programabilidade.

Por exemplo, hoje nós temos um grande desafio para criarmos o Pix Automático e o Pix Recorrência. Com o Drex, isso será muito mais fácil por causa dos contratos inteligentes, que nada mais são que regras e condições para que o dinheiro saia do ponto A e vá para o ponto B.

O grande lance da programabilidade do Drex é que você vai programar a saída do dinheiro do ponto A para os pontos B, C, D e E ao mesmo tempo. No Pix, isso não seria possível. Você teria que fazer quatro operações distintas. Assim, a infraestrutura do Drex vai nos permitir fazer outros tipos de programações em cima do dinheiro que sai do ponto A para o ponto final.


Como a programabilidade dos contratos inteligentes vai impactar nas soluções?

Eu vou te falar no caso do Banco ABC Brasil, que é focado no mundo corporativo, mais especificamente em médias e grandes empresas. As transações empresariais dos nossos clientes não acontecem no internet banking. Como elas começam dentro dos seus ERPs (Enterprise Resource Planning), isso faz com que as suas condições comerciais, como se o pagamento será à vista ou parcelado, prazo de pagamento ou se terá ou não desconto, estejam registradas nos seus sistemas de gestão.

Essas relações comerciais e financeiras poderão ser programadas dentro do Drex através dos contratos inteligentes, que vão conectar e interoperar com outros softwares que existem no mercado.

Vamos imaginar o exemplo de uma empresa que está exportando soja, sendo que o seu comprador somente vai pagá-la quando a soja for desembarcada no seu porto. Por mais que o mercado possua sistemas logísticos que façam o tracking dessa soja, eles não conseguem interoperar com a rede financeira do Brasil, mas no Drex será possível programar a interoperabilidade dessas redes. Nesse caso, na hora em que bater no sistema de tracking do comprador que a soja foi entregue, o contrato inteligente do Drex será, automaticamente, avisado e ativará o pagamento de uma conta para a outra.

Além da programabilidade, nós teremos a interoperabilidade, onde o sistema financeiro poderá interoperar com outras redes financeiras ou não financeiras, o que fará uma grande diferença. Esses são os dois ganhos mais potentes que a CBDC brasileira vai trazer para a população. Ela vai tornar a nossa vida mais fácil, mais eficiente, mais digital e, com certeza, mais segura e transparente.

Isso significa, necessariamente, que o sistema ficará mais barato? Essa é uma dúvida. Para que você tenha uma ideia, para cada 10 transações de Pix que um banco processa, ele tem que pagar R$ 0,01, sem contar que, por força de regulação, o Pix é gratuito para pessoas físicas. Já uma rede blockchain, por mais eficiente que seja, ela não é, necessariamente, barata, mas essa não é uma discussão que o Banco Central esteja colocando agora.

O que ele está colocando é que o Drex transformará a nossa infraestrutura, trazendo uma programabilidade e uma interoperabilidade que nós ainda não temos. Depois que isso for validado, ele passará para a segunda fase que é a escalabilidade e os custos.

Todos que participam do piloto acreditam no Drex, mas todos sabem que ainda haverá muito tempo de discussão para que se chegue numa escalabilidade e numa condição de custo que sejam boas para todos, pois, senão, nós podemos ver um custo de infraestrutura que vai inviabilizá-lo ou que vai aumentar o custo do serviço final para o cliente, sendo que essa não é a intenção do Banco Central.


Quando eu acesso o aplicativo do meu banco, eu vejo a minha conta. Quando eu faço um Pix, eu vejo ele acontecendo. Como eu vou ver o Drex?

Você não vai ver o Drex. No final das contas, o Drex, que é o sistema por detrás do Real Digital, vai nos mostrar reais. O saldo da sua conta será o mesmo, mas os bancos saberão o que é Drex ou não. Por exemplo, quando você faz um Pix, você pega dinheiro do STR, joga no SPI e manda para quem você quer pagar, mas você não vê isso acontecer.

Para dar conta dessas transações, os bancos ficam analisando quanto eles têm no STR e quanto eles têm que deixar no SPI. O Drex será mais uma dessas “caixinhas” para os bancos controlarem. Num primeiro momento, da forma como estamos testando, os bancos terão uma conta reserva no Banco Central, uma conta Pix e uma conta Drex, mas o usuário só vai ver reais.

No piloto do Drex, existem bancos que estão colocando no protótipo essa diferenciação. Com isso, o usuário vai ver o saldo em reais e o saldo em Drex, mas na camada do Banco ABC Brasil é só o saldo final, pois não há motivo para falar para a pessoa o que é Drex e o que não é.

Agora, olhando para o futuro, no exemplo das condições comerciais que uma empresa possui no seu ERP e que serão colocadas num contrato inteligente do Drex, aí sim, o cara que opera o ERP da empresa precisa conhecer o funcionamento dessa rede para programar o que ele precisa. Essa programabilidade pode concorrer, fortemente, com vários outros instrumentos que existem no mercado, como os boletos de cobrança. Talvez, neste momento, uma parte dos consumidores, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas, terão conhecimento da operação dessa infraestrutura.

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