"Você é minha miragem."

Empresa Cidadã / 13:48 - 4 de dez de 2001

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(Betinho, dirigido a Maria Nakano, em Lembranças de um semeador de utopias) Tempo é mercadoria. Pelo menos, derivativos do tempo são. A maior empresa comercializadora de energia nos Estados Unidos, a Enron, com sede em Houston, mantém um departamento de administração do risco do tempo, através do qual dezenas de profissionais transformam as apostas em chuva ou seca numa commodity. - Este mercado é avaliado em mais de US$ 7 bilhões. Além da função econômica, há quem interprete nesta ação uma função social também, decorrente do equilíbrio de riscos através de contrato que fazem os vários agentes sociais com interesses antagônicos, como fazendas e usinas hidrelétricas. - A Enron é a mesma empresa que produziu recentemente dois choques nos investidores norte-americanos, só que de natureza distinta do seu negócio. Em outubro, avisou sobre uma redução no seu patrimônio líquido. Em novembro, disse que os resultados dos últimos três exercícios estavam inflados em mais de US$ 500 milhões. Participante do programa de privatização do setor elétrico, aguarda-se a sua decisão em relação aos investimentos realizados no Brasil. - O caso e a confissão da Enron trazem à tona outras situações presentes na economia de desconfiança das demonstrações que as empresas apresentam aos seus públicos. Só nos Estados Unidos, há dúvidas quanto à avaliação de investimentos declarados por empresas de até US$ 125 bilhões. - Em tempos em que a decisão de sair de casa com o guarda-chuva é uma mercadoria e tem seu preço formado num mercado especulativo, influenciado pelas informações oferecidas pelas empresas, boas ou blefes, outras decisões dos cidadãos, como investir ou consumir, comprar ou vender ações, empregar-se nesta ou naquela empresa, consumir ou não um bem, tributar ou subsidiar, privatizar ou estatizar estão todas sujeitas ao acerto ou à manipulação. - A crise de credibilidade dos indicadores presente na economia norte-americana já oferece alguns casos clássicos, com explicações para os desajustes. Os princípios contábeis geralmente aceitos, mais conhecidos pela sigla Gaap, de responsabilidade do Financial Accounting Standards Board, são questionados por muitas empresas como inadequados para informar os seus resultados, especialmente em relação ao lucro líquido. - Resulta daí, um conjunto de definições sobre indicadores suplementares, sobretudo relativos ao resultado operacional, cuja forma varia de empresa para empresa e até de um período para outro na mesma empresa. Como sopa de siglas não mata fome de confiança, entidades como SEC, Fiab, Iasb, S&P, Aicpa e outras que desfrutam de conceito e responsabilidade na padronização de normas de demonstrações de resultados de empresas, são insuficientes para oferecer segurança para a tomada de decisões dos cidadãos. - Em relação às demonstrações de desempenho social das empresas, pode-se dizer que há uma analogia com o que se passa hoje na avaliação financeira e econômica de empresas norte-americanas. Aparecem formas de relatórios a todo instante e não há uma correspondência em verificação de conteúdo ou comparação entre eles. A credibilidade dos relatórios acaba sendo valorizada pela credibilidade da própria marca que o apresenta e, de forma redundante, valoriza mais a própria marca. - Outros riscos estão presentes e o maior deles talvez seja o da inexistência de um controle da sociedade sobre a credibilidade da informação oferecida. Pode até acontecer de uma instituição oferecer um elenco de indicadores para uso das empresas, bons no aspecto, mas que funcionem mais como uma anti-ética reserva de mercado de consultoria ou certificações, comprometendo a sua credibilidade. DIGNO DE NOTA Aconteceu no dia 22 de novembro, na sede da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), o Fórum Permanente do Balanço Social, etapa Rio de Janeiro, promovido pela Fundação Fides e pelo Ibase, com o objetivo de propiciar o debate plural e democrático sobre o balanço social e a responsabilidade social. Na ocasião, foram apresentados os casos da CSN e da Embratel, empresas que publicam balanço social e vêm obtendo resultados interessantes com a prática. Digno de nota também foi o lançamento do livro Betinho, Lembranças de um semeador de utopias, com cartuns e artigos de vários autores, entre eles o próprio Betinho, com um texto comovente dirigido a Maria Nakano, sua companheira. Ontem, na livraria do Museu da República. AGENDA Hoje, na Uerj, auditório 11, Rua São Francisco Xavier 524, às 15 horas, Paul Singer, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, participará do ciclo de debates do Programa de Responsabilidade Social (Redes), falando e debatendo sobre economia solidária. Paulo Márcio de Mello Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Correio eletrônico: paulomm@alternex.com.br

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