Volatilidade foi a principal característica na semana que passou

No segmento doméstico, a maior preocupação foi com o crescimento da dívida pública e déficit primário.

Opinião do Analista / 10:20 - 13 de jul de 2020

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Avaliamos que a principal característica dos mercados de risco na semana que passou foi a volatilidade. Mudanças de sinais intra e entre pregões, mas quase sempre com leve viés de alta, principalmente bancado por ações do segmento de tecnologia que sustentaram os mercados. Os investidores durante o período oscilaram bastante entre o otimismo do desenvolvimento de vacinas e medicamentos com rápida aplicabilidade, e o pessimismo de possível onda de contágio e passo atrás na flexibilização social.

No segmento doméstico, a maior preocupação foi com o crescimento da dívida pública e déficit primário, assim como o endereçamento de reformas e outras medidas no pós-pandemia. Do lado político, clima ainda ameno com o afastamento temporário de Bolsonaro por contágio da Covid-19.

No cenário externo, a nova onda de expansão do contágio da doença assustou investidores, com sucessivos recordes nos EUA, notadamente no sul do país; além de recordes também no Japão e Índia, e com outros países reduzindo a flexibilização social e fechando novamente restaurantes. Ilustramos isso com a Itália, proibindo a entrada de turistas do Brasil e de outros 12 países, e a declarações do secretário americano Mike Pompeo de que o Brasil não tem status especial e só será liberado fluxo de viajantes quando a ciência aprovar.

Aliás, a Organização Mundial da Saúde (OMS), que os EUA deixaram formalmente de contribuir, sugeriu que os países com aumento de contágio intensifiquem as restrições de circulação.

Na ponta inversa, várias empresas anunciaram sucesso no desenvolvimento de vacinas, medicamentos e novos testes sendo aplicados. A empresa Moderna divulgou que está entrando na terceira fase de pesquisa e testes ainda nesse mês, enquanto a Gilead divulgou que o medicamento Remdesivir reduziu a mortalidade em 62% nos pacientes em estado grave.

Essa oscilação de humor dos investidores interferiu diretamente no comportamento dos investidores ao longo de todo o período. Mas, não foi só isso. Na semana, os EUA anunciaram novas sanções envolvendo a China, que podem dar rumo diferente ao acordo comercial entre os dois países. Aliás, Donald Trump diz não estar nesse momento preocupado em discutir outra fase do acordo. Aplicaram também sanções contra cidadãos chineses e o escritório de segurança (ainda com relação à lei de segurança nacional de Hong Kong) e vetaram negócios com empresas que usarem produtos de cinco companhias chinesas (claramente Huawei e ZTE, estão nesse pacote). A Austrália, também por conta dos problemas com Hong Kong, suspendeu o tratado de extradição.

Na União Europeia, também houve algumas confusões. Dirigentes declararam que existem divergências significativas com o Reino Unido sobre o Brexit e Angela Merkel frisa que pode não ocorrer acordo. Nesse contexto, o Reino Unido é dentre o grupo do G-20, o que mostra a pior performance econômica, mas o governo anunciou na semana medidas de estímulo. De outra feita, a União Europeia, começa a agir na integração da Croácia e Bulgária no grupo e a adoção do euro.

O Bank of International Settlement (BIS), o Banco Central dos Bancos Centrais, através de seu chefe de pesquisas, declarou que caminhamos para crise prolongada na economia global e também advertiram sobre problemas de solvência de instituições (já abordamos isso aqui) e necessidade de maior regulação do sistema financeiro. Da União Europeia também partiu a advertência de que estamos na pior crise global dos últimos 100 anos.

No Japão, em relatório divulgado, o BoJ (o BC japonês) reduziu as projeções de crescimento de todas as regiões e, Haruhiko Kuroda, presidente do BoJ, fez menção a gravidade da situação. Já a China parece mesmo ter engatado forte recuperação. A inflação medida pelo CPI (consumidor) de junho ficou abaixo do previsto em 2,5% anualizada e o PPI (atacado) com deflação de 3% anualizada, melhor que o previsto de -3,7%. Lá, as vendas de veículos de junho cresceram 11,6% e novos empréstimos expandiram 1,8 trilhões de iuanes.

Destaque também para a produção industrial da França, com expansão em maio de 19,6% e na Itália a produção industrial crescendo incríveis 42,1%, bem verdade partindo de base sofrível do fechamento das economias. Na Alemanha, as exportações de maio cresceram 9%, enquanto as importações somente +3,8%, deixando um superávit na balança comercial de 7,6 bilhões de euros.

Nos EUA, dados também melhores foram anunciados. Os pedidos de auxílio-desemprego da semana anterior encolheram 99 mil posições para 1,3 milhão de pedidos (previsão era 1,4 milhão), os estoques no atacado de maio em queda de 1,2% e inflação medida pelos preços no atacado (PPI) em queda para -0,2%, quando o previsto era -0,4%. O governo também está anunciando novos estímulos para a economia, discurso recorrente de Trump e seus secretários Steven Mnuchin e Larry Kudlow. Donald Trump também sofreu revés com a Suprema Corte que rejeitou tentativa do presidente de não entregar seus dados financeiros para a Justiça de Nova Iorque.

O Fed registrou nova redução do tamanho de seu balanço para US$ 6,9 trilhões, pela primeira vez deixando de fazer operação repo na semana, desde setembro de 2019, e com membros dizendo que se as condições de mercado continuarem a melhorar, poderão reduzir ou deixar de comprar ativos.

Como se pode ver, durante o período existiram fartos motivos para os investidores oscilarem entre o otimismo e o pessimismo. Porém, a liquidez do mercado internacional e o apetite maior ao risco diante de juros tão baixos têm feito a diferença. Além disso, a pandemia trouxe a necessidade de rearranjo das posições de carteiras, beneficiando as ações ligadas ao segmento de tecnologia.

No segmento local, cenário político novamente tranquilo, até por conta de o presidente estar de quarentena por ter testado positivo para a Covid-19. Já o vice-presidente Hamilton Mourão, realizou um encontro com investidores estrangeiros e grandes gestores de recursos para tentar apagar a imagem do país sobre maus tratos ao meio ambiente, mas foram solicitados mais dados sobre a situação e postura do governo com relação ao comprometimento com o clima e queimadas. Sobre isso, o governo vai emitir determinação de suspensão de queimadas por 120 dias, aproximadamente.

O Congresso Nacional aprovou MPs sobre jornada de trabalho e contratos, concluiu votação da MP 930 que altera tributação sobre variação cambial, a MP aérea (Latam Brasil pediu RJ nos EUA e quer deixar de pagar aluguel de aeronaves), e o presidente vetou itens relacionados com a desoneração da folha de pagamentos até final de 2021, suscitando formação de bloco dos setores prejudicados para tentar barrar. Também destacamos carta aberta do PSDB criticando fortemente a postura do ministro Paulo Guedes em entrevista concedida, criticando o Plano Real.

Na economia, grande preocupação com o nível de endividamento e déficit primário, depois de divulgados os dados de maio na semana anterior, e como a área econômica vai endereçar reformas e ajustes pós-crise. A pesquisa semanal Focus do BC veio quase sem alterações e mudanças na margem, como o PIB melhor, em queda de 6,50%, mas com a produção industrial encolhendo 8,10% (anterior em -6%).

O IBGE anunciou que as vendas no varejo de maio cresceram 13,9%, mas contra igual período, mostraram queda de 7,2%. O varejo ampliado cresceu 19,2% e comparado a maio de 2019 houve queda de 14,9%. A inflação oficial de junho ficou em 0,26% (anterior em -0,38%), no ano +1% e em 12 meses com taxa de 2,13%. O volume de serviços prestados registrou queda de 0,9% em maio, representando 7,6% no total e em 12 meses com -2,7%. O fluxo cambial acumulado até o dia 3 de julho mostra saídas de US$ 12,9 bilhões (em junho saída de US$ 2,9 bilhões), a posição cambial líquida estava em US$ 299,4 bilhões e as instituições vendidas em câmbio em US$ 26,9 bilhões. Já a base monetária no final de junho era de R$ 381,7 bilhões.

Na Bovespa, os investidores estrangeiros até o dia 8 estavam vendidos no mês em R$ 3,01 bilhões, acumulando saídas líquidas em 2020 de R$ 79,5 bilhões.

Mesmo com isso, os investidores locais seguem alocando recursos, e de certa forma garantindo a recuperação da Bovespa. Tanto isso é verdade que durante a semana chegamos a bater a máxima do índice em 100.191 pontos, situação que não acontecia desde 6 de março.

 

Perspectivas - Certamente os investidores seguirão avaliando o comportamento da contaminação pela Covid-19 como principal fator de risco, além do noticiário sobre medicamentos e vacinas que estão sendo testadas. Daí deriva a percepção de quão rápida (ou não) será a retomada das economias.

Igualmente, seguirão acompanhando os esforços de países e Bancos Centrais para redução dos impactos, e as respostas via indicadores de conjuntura. A semana vem com dados importantes sobre produção e vendas no varejo em junho nos EUA, e pode reforçar a vertente de que por lá a recuperação pode se aproximar de uma formação em "V".

Apesar disso, não podemos desconsiderar que os investidores estão com apetite ao risco e isso explica, inclusive, os novos recordes de pontuação registrado pelo Nasdaq. Com as taxas de juros vigentes em todo o mundo e a forte liquidez do sistema financeiro global, a busca por risco precisa apenas do estopim de algumas boas notícias.

Aqui a situação é um pouco mais complicada, mas o viés é semelhante no que tange ao apetite por risco. Gestores, fundações de seguridade e público em geral; buscam maior exposição ao risco tendo como finalidade melhor remunerar recursos investidos. Porém, é preciso que o governo enderece claramente os objetivos de ajuste da economia e reformas (principalmente quando ultrapassada a fase mais crítica da crise), assim como privatizações e marcos regulatórios, para dar maior segurança jurídica.

Se isso começar a ser abordado, os investidores reagirão positivamente. Pela análise técnica, seria preciso superar com consistência a marca de 100 mil pontos do Ibovespa, para acionar objetivo na casa de 105 mil/106 mil pontos.

Ruim seria um quadro mais pessimista que levasse o índice para perto de 93 mil pontos, pois poderia precipitar realizações de lucros recentes.

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Alvaro Bandeira

Economista-chefe do Banco Digital Modalmais

Fonte: www.modalmais.com.br/blog/falando-de-mercado

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