Votar com consciência de gênero?

Por Juliana Brizola.

Opinião / 16:15 - 8 de set de 2020

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Os países que se saíram melhor e com menos danos da crise causada pela pandemia da Covid-19 são dirigidos por mulheres, como as ocupantes de cargos no parlamento na Islândia, Nova Zelândia, Taiwan, Singapura, Noruega, Finlândia, Alemanha, Dinamarca e Bélgica. Apesar de o trabalho das lideranças femininas dos países em desenvolvimento não ter a mesma visibilidade, a América Latina está acima da média mundial no índice de representação das mulheres nos legislativos, ocupando 31,6% das vagas nas Câmaras de Deputados, de acordo com a pesquisa de Beatriz Pedreira (diretora do Instituto Update).

Nessa pesquisa foram mapeadas 600 mulheres e entrevistadas 107, entre as quais 96 ocuparam cargos eletivos. Nesse sentido, as mulheres na América do Sul têm avançado na política. Pela primeira vez, uma mulher foi eleita prefeita de Bogotá (Colômbia), Claudia López Hernandes, o Chile é o primeiro país da América Latina a eleger uma mulher para a Presidência, Michelle Bachelet. E Dilma Rousseff, a primeira mulher eleita Presidente da República Federativa do Brasil. Porém, o Brasil está abaixo da média, se comparado a outros países da região, no quesito “participação da mulher na política”: 12% prefeitas eleitas e 22,6% na Câmara dos Deputados. Os dados revelam que as mulheres ainda são agredidas, de alguma maneira, por conta de gênero.

Para entrar na arena política, as brasileiras têm que superar muitos obstáculos, e o primeiro deles é o de viver em um país patriarcal, machista e campeão em feminicídio, cujo mercado de trabalho restringe oportunidades para elas e oferece salários 30% inferiores aos dos homens. E não foi fácil conquistar espaço, muitas morreram lutando pelos direitos das mulheres. As brasileiras somente tiveram direito ao voto em 1934, e em 1997, ainda foi preciso incentivar a participação das mulheres na política com a aprovação da Lei eleitoral determinando cota de 30% para candidaturas femininas. Em 2020, somos 15% na Câmara dos Deputados, 13% no Senado, e 11,65% de mulheres prefeitas eleitas.

Tendo que enfrentar tantas dificuldades e sendo ignoradas pela “velha” política, as mulheres que ocupam espaços políticos no Brasil estão criando estratégias para unir forças. Uma campanha política em Belo Horizonte/MG, com o lema “votou em uma, votou em todas”, elegeu duas mulheres para a Câmara Municipal, surgindo daí “A Gabinetona”, um mandato coletivo construído por quatro parlamentares em três esferas do Legislativo.

Ainda há muito a fazer para aumentar a participação das mulheres na política, seguindo a trilha de algumas pioneiras que “furaram a bolha”: a professora Elizete Mello da Silva, a Dedé, (PV), primeira presidente da Câmara Municipal de Assis (São Paulo); Raquel Lyra (PSDB-PE), primeira mulher prefeita do município de Caruaru (PE); Joenia Wapichana, primeira mulher indígena eleita para o parlamento; e as primeiras deputadas transexuais eleitas para as Assembleias Legislativas.

A misoginia presente na política brasileira é um desafio a ser enfrentado e suscita muitas questões: para acabar com o monopólio masculino do território político, a melhor estratégia é votar com consciência de gênero e apoiar candidaturas femininas? A longo prazo, a melhor forma de garantir a presença de mulheres na política é mudar a cultura da sociedade, incentivando as mulheres, desde meninas, a ocuparem espaços de poder.

Juliana Brizola

Deputada (PDT-RS), é líder do PDT na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

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