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sábado, janeiro 16, 2021

Voto, poder de transformação

Os brasileiros irão às urnas no próximo domingo escolher os prefeitos, que não conseguiram ser eleitos no primeiro turno. Alexandre Kalil (PSD), em Belo Horizonte; Marquinhos Trad (PSD), em Campo Grande; Rafael Greca (DEM), em Curitiba; Gean Loureiro (DEM), em Florianópolis; Álvaro Dias (PSDB), em Natal; Cinthia Ribeiro (PSDB), em Tocantins; e Bruno Reis (DEM), em Salvador, foram campeões de votos em suas cidades e se elegeram logo no primeiro turno.

As eleições municipais de 2020 foram as primeiras após a ascensão do bolsonarismo, que levou Jair Bolsonaro à presidência da República, em 2018. A eleição de Bolsonaro foi parte da onda conservadora que inundou o Brasil e o antipetismo, por causa da grave crise político-econômica de 2014, iniciada no Governo Dilma Rousseff, que sofreu um impeachment, e agravada no Governo Michel Temer. A consequência dessa crise foi a diminuição considerável de prefeitos eleitos pelo PT, sobretudo em face da Operação Lava Jato, que levou, inclusive, o ex-presidente Lula para a cadeia.

Nesse vácuo, viram-se a vitória do bispo Marcelo Crivella, no Rio, e do empresário João Dória, em São Paulo. O primeiro, do Republicanos, é prefeito, candidato à reeleição, encontrando grande dificuldade para vencer o adversário Eduardo Paes, DEM, que está 25 pontos à sua frente, e que já foi prefeito da Cidade Maravilhosa por oito anos.

Já Dória, depois de ser eleito prefeito foi, em seguida, eleito governador do Estado de São Paulo, pelo PSDB, e teve, na atual campanha, de se descolar do candidato a prefeito de São Paulo Bruno Covas, do mesmo partido, para lhe permitir dar voo solo, uma vez que o desgaste do governador paulista é notado nas pesquisas. Covas continua na frente em todas as pesquisas, com 48% das intenções de voto, e seu opositor na corrida à prefeitura, Guilherme Boulos, Psol, tem 37% dessas intenções, sendo a grande revelação nessa eleição de 2020.

Na esfera nacional, o presidente Bolsonaro deu apoio a vários candidatos, mas nenhum deles conseguiu ser eleito. Com medo de arranhar ainda mais a sua imagem, preferiu, nesse segundo turno, não fazer campanha para o candidato do Rio, Crivella, com medo indisfarçável de o prefeito carioca não ser reeleito. Em São Paulo, seu candidato, Celso Russomano, Republicanos, amargou um quarto e humilhante lugar na corrida municipal, apesar de ter largado na pole-position.

E, de acordo com as últimas pesquisas realizadas pelo Ibope, a avaliação positiva do Governo Bolsonaro despencou numericamente em 23 das 26 capitais brasileiras, nos últimos dois meses. E naturalmente essa má avaliação repercutiu nas urnas de todo o país. No Nordeste, em João Pessoa, na Paraíba, ocorreu a maior redução de avaliação “boa” ou “ótima”, atingindo um percentual de 43%.

Em São Luís, no Maranhão, o percentual que considera a gestão de Bolsonaro ruim ou péssima aumentou de 46% para 57%; em Curitiba, no Paraná, a alta foi de 10 pontos percentuais, de 34% para 44%. Salvador é a capital em que Bolsonaro tem a pior avaliação, e somente 15% dos soteropolitanos consideram seu governo bom ou ótimo. Os resultados da pesquisa mostram que, em São Paulo, a avaliação de ruim e péssimo pulou de 48% para 54%, enquanto no Rio de Janeiro, subiu, de ruim e péssimo, de 38% para 43%.

No primeiro semestre deste ano, as eleições passaram a ter como tema central a pandemia da Covid-19, levando a Justiça Eleitoral, os partidos e políticos a remodelarem seu planejamento para o processo eleitoral. Em maio, com dificuldade em controlar a pandemia e com o descaso do Governo Federal em relação ao coronavírus, o Congresso Nacional adiou as eleições municipais com a promulgação da PEC 18/2020, originando a Emenda Constitucional 107. O primeiro turno foi marcado para o dia 15 de novembro e, o segundo, para este domingo, dia 29 de novembro.

Lamentavelmente, o que se observa e o que se verifica entre os candidatos que chegaram ao segundo turno, e citando os do Rio de Janeiro e de São Paulo, os colégios eleitorais de maior importância no Brasil, é que os quatro perderam completamente a postura e a compostura. Em vez de discutirem e apresentarem propostas melhores para ambas as cidades, os discursos sobretudo, no Rio de Janeiro, são ataques à honra, à integridade e à moral.

O eleitor carioca perde, e muito, pois o nível das mentiras cresceu assustadoramente, e a criação de fatos que não traduzem verdade se espalham nas ruas, nas avenidas, nos becos, nos largos e nas redes sociais com muita facilidade e velocidade, gerando grande confusão no eleitor, que, perplexo, assiste a uma luta de titãs, que buscam permanecer ou voltar ao Palácio da Cidade, no desafio do vale tudo. Diante desse cenário com tantas manifestações sombrias, o Ibope revela que Eduardo Paes tem 65% das intenções dos votos válidos, contra 35% desses mesmos votos para Marcelo Crivella.

Em São Paulo, a situação não é muito diferente, com a esquerda também dividida, como no Rio, e com o candidato do PT derrotado de forma assustadora, mesmo que apoiado pelo ex-presidente Lula. Covas vem sendo duramente criticado por Boulos, por ser apadrinhado de Dória e nega-lhe palavras positivas em relação ao governo municipal que chefia. Ao contrário, lhe faz duras acusações de omissão, negligência e má administração.

Já Boulos, que tem como vice Luiza Erundina, atual deputada federal, e que já foi prefeita de São Paulo e ministra de Estado, e que se projetou na política como líder do movimento sem-teto, diz que governará com formas de participação social mais ampla e terá negros em seu secretariado. Nesse ringue, o Ibope revela que as intenções de votos válidos, em São Paulo, dão vantagem para Covas, com 57%, contra 43%, para Boulos.

Nesse momento, crítico para o mundo e crítico especialmente para o Brasil, os políticos deveriam deixar de lado suas diferenças pessoais e ideológicas e marcharem para o bem comum dos brasileiros, que precisam de saúde de qualidade; de educação em tempo integral; de boa infraestrutura nas cidades; de saneamento básico; de políticas públicas efetivas em relação ao meio ambiente; de um sistema urbano que funcione efetivamente; de combate ao racismo, pois as vidas importam, sejam de índios, negros ou brancos; de atenção aos idosos.

O que ocorreu em Macapá, Amapá, com um apagão de quase 30 dias, é absolutamente inaceitável e vergonhoso e revela o descaso das autoridades públicas com aquele estado. Mas se lá o apagão foi manchete no mundo, as mazelas dos grandes centros brasileiros estão diariamente estampadas nos noticiários. O brasileiro quer simplesmente viver em um país bem governado, com disciplina, com ética, com ordem e progresso. Parece que os políticos são míopes para os problemas os quais são enfrentados todos os dias pelo povo, e vivos suficientemente para legislarem para seus interesses pessoais, escusos, imorais e amorais.

 

Paulo Alonso

Jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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