Wagner Cinelli, observador atento do mundo

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Desembargador Wagner Cinelli de Paula Freitas (foto divulgação)
Desembargador Wagner Cinelli de Paula Freitas (foto divulgação)

Observador atento da sociedade e sua movimentação, no tempo e no espaço, Wagner Cinelli de Paula Freitas acaba de lançar o livro Sobre ela, uma história de violência, no qual propõe um olhar multidisciplinar sobre a violência contra a mulher. O tema é desenvolvido com muita propriedade, lucidez e delicadeza, a partir da desigualdade de gênero, abordando também a evolução legislativa, programas e políticas públicas que são desenvolvidos no Brasil.

Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, membro do Fórum Permanente de Antropologia e Sociologia da Escola da Magistratura e mestre em Criminal Justice Policy pela London School of Economics and Political Science, Reino Unido, Wagner Cinelli é também autor da obra Espaço Urbano e Criminalidade: lições da Escola de Chicago, vencedora do VI Concurso de Monografias Jurídicas do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

O livro de Wagner Cinelli aborda um tema que dificilmente poderia ser mais pertinente nos dias atuais, onde a mulher continua sendo vítima, dia após dia, da intolerância de companheiros e de ex-companheiros. A cada nova onda de denúncias de crimes bárbaros, hediondos e violentos, surgem, fortemente apoiadas pela opinião pública e pela mídia, propostas de políticas públicas de segurança baseadas no aumento da repressão policial.

Buscando alternativas, Wagner Cinelli procura escapar de uma dicotomia por ele muito bem observada e pontuada em sua obra. Por um lado, as Ciências Jurídicas se especializaram sem incorporar contribuições recentes das Ciências Sociais; por outro, essas últimas procuram respostas para a violência urbana sem terem controle de um amplo leque de condutas, debates travados na promulgação de leis criminais e mudanças de concepção no policiamento das ruas e implementação de penas que vem sendo desenvolvidos por agentes competentes.

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O autor, com brilho e de forma metodológica e didática, coloca o leitor frente a novas perspectivas de controle do crime, objetivo caro à Criminologia e à Justiça Criminal, que se voltam basicamente para um conjunto complexo de práticas e funções institucionais.

Wagner Cinelli é graduado em Direito pela UFRJ e também concluiu o curso de Ciências Sociais pela Uerj. Logo, une esses dois conhecimentos e faz um diálogo perfeito, em sua narrativa muito bem construída e desenvolvida, ao longo de 12 capítulos desse livro, entre o Direito e as Ciências Sociais. O resultado do trabalho é simplesmente magnífico, com uma linguagem factível.

A também escritora e juíza Andréa Pachá, mestra em Saúde Pública e Direitos Humanos, no prefácio da obra, escreve: “Wagner Cinelli conhece bem esse tema, não somente em razão da magistratura, que exerce com humanidade, sempre ocupado com a afirmação dos direitos fundamentais e dos princípios civilizatórios que nos trouxeram até aqui. Ele é um homem insistentemente indignado com as desigualdades que ofendem, machucam e matam.”

Na contracapa do livro, Adriana Ramos de Mello, juíza titular do I Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Comarca do Rio de Janeiro e doutora em Direito Público e Filosofia Jurídico-Política, escreve que a sensibilidade do autor traz a compreensão de que a luta pela igualdade de gênero e o combate à violência a mulher devem ser compartilhados por toda a sociedade e não apenas pelas próprias mulheres. “Parabenizo o colega pela coragem da iniciativa e pelas reflexões que certamente a sua obra promoverá para introduzir a ética da igualdade como elemento essencial ao conceito maior da justiça.”

A desembargadora Cristina Teresa Gaulia, também integrante do TJ-RJ, doutora em Direito, ressalta que Wagner Cinelli propõe, em sua obra, o diálogo, entre duas faces: mulher vítima de violência doméstica e homem-agressor. “O livro é uma joia rara que instiga e, pelas mãos seguras de Cinelli, nos propõe um mergulho weberiano e uma ponte segura para a melhor compreensão da Lei Maria da Penha.”

Durante os anos em que atuou como juiz criminal, na década de 1990, Wagner Cinelli se surpreendeu com a quantidade processos de agressões dos maridos para com as esposas e de como os casamentos continuavam apesar da violência. Engajado na causa, o magistrado decidiu trabalhar em frentes de conscientização sobre a violência de gênero.

Pena que, no Afeganistão, tão conturbado e derretido por uma gravíssima crise social, política e humanitária, sem liberdades e nem muito menos respeito às mulheres, não existam cidadãos corajosos como Wagner Cinelli, que pensam e agem em favor dos Direitos Humanos, lá absolutamente ultrajados.

Antes de publicar o livro, o autor assinou a direção, o roteiro e a música do curta-metragem Sobre Ela, lançado em fevereiro de 2020 e premiado no New Wave Short Film Festival, na Alemanha, com o troféu da modalidade “Empoderamento Feminino”. Cinelli optou pelo filme mudo, uma forma de simbolizar o silêncio que assola as mulheres vítimas de violência, que muitas vezes não podem ou não conseguem sequer pedir socorro.

Na história, a casa se torna um espaço tomado pelo medo. Com cenas que variam entre passado (colorido) e presente (preto e branco), a história reúne conhecimentos da Antropologia, Sociologia, Direito, História e das Ciências Criminais para fornecer uma visão global sobre o tema.

Além de magistrado, Wagner Cinelli é músico e compositor, tem uma banda, a Urca Bossa Nova Jazz, e vem se dedicando à promoção da arte e da cultura, com grande desenvoltura, além de, atualmente, se preocupar em colaborar para conter o avanço da pandemia da Covid-19. Pensando assim, lançou um clipe sobre esse assunto e a canção, interpretada por Vinny, é de sua autoria e da filha, Gabriela Zimmer.

Na descrição do vídeo, eles explicam que são integrantes da Urca Bossa Jazz e reforçam a corrente para o imprescindível distanciamento social, como forma de salvar vidas. Além de Vinny, de Wagner Cinelli e de Gabriela, participam Rodrigo Sha, Fernando Mendes e Rebeca Sauwen. O clipe foi gravado, naturalmente, em casa por cada participante, tendo em vista as atuais condições sanitárias de saúde.

Wagner Cinelli é um homem sensível e antenado com o tempo vivido. Magistrado, escritor, músico, roteirista, cantor e compositor, é múltiplo, despojado, afável, espirituoso e generoso. Os questionamentos sempre feitos em relação aos problemas pelos quais a mulher passa – tais como o que leva o parceiro a transformar a amada em sua vítima contumaz? Como pode o lar, que deveria ser um ambiente seguro, se tornar lugar de tormenta e medo? Por que tantas dessas vítimas insistem na manutenção do vínculo afetivo com o seu agressor? Como quebrar o ciclo de violência? – são respondidos pelo autor de Sobre ela, uma história de violência.

As repostas para tantos questionamentos, e que envolvem variáveis tão complexas, exigem um trabalho coletivo e tem como requisito simplesmente falarmos. Parodiando o poeta português Fernando Pessoa, “Falar é preciso”. Por isso, precisamos falar Sobre ela, e sempre.

E Wagner Cinelli, e indo novamente ao encontro do genial Fernando Pessoa, tem nele “todos os sonhos do mundo”. E esse mundo, Cinelli vem construindo, com robustez, na aplicação diária do Direito, escrevendo livros, roteiros e letras musicais, tocando na sua banda, exercitando, enfim, a arte de bem servir, com suavidade, disciplina e ética. Afinal, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena.”

 

Paulo Alonso, advogado e jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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