Wilson Witzel e a cabeça na mira

Por Marlon Cecilio de Souza e Luiz Felipe Sangi do Nascimento.

Apesar da palavra impeachment ser bastante comentada dentro da democracia brasileira, historicamente este processo não é tão comum entre governadores dos estados brasileiros. Na história do país apenas um governador teve seu impedimento “concluído”, Muniz Barreto, em 1957, no Estado de Alagoas.

Este episódio foi um verdadeiro show de horrores. A região estava subordinada ao coronelismo e, no dia da votação do processo, os parlamentares entraram em um conflito armado dentro da Assembleia Legislativa, como documenta o jornalista Jorge de Oliveira em seu livro Curral da Morte: o impeachment de sangue, poder e política no Nordeste.

Na ocasião, os 13 deputados que apoiavam o governo entraram em confronto com os 22 parlamentares de oposição. Uma pessoa foi morta e mais oito ficaram feridas (entre parlamentares, funcionários da casa e jornalistas). Dias depois, os deputados opositores votaram no processo que afastou o, até então, governador. Entretanto, após o STF ter julgado o processo como inválido, devido à ausência dos governistas na votação, o governador eleito voltou ao cargo quatro meses e nove dias depois e lá permaneceu até o final de seu mandado.

Atualmente, dois governadores são alvos de processos de impeachment: Wilson Witzel (PSC-RJ) e Wilson Lima (PSC-AM). Além destes, Carlos Moisés (PSL-SC), que também chegou ser afastado ao longo do processo de impeachment que respondia, foi recentemente absolvido. Os três são políticos inexperientes, que conseguiram se eleger surfando na onda bolsonarista que varreu o Brasil em 2018, ao adotarem discursos alinhados com o do, então, candidato à presidência Jair Bolsonaro, focados, sobretudo, no combate à corrupção e à criminalidade e também na revolta contra o establishment político.

Dentre os três governadores, Wilson Witzel é quem tem o caso mais delicado. Witzel está na iminência de se tornar o primeiro governador da história do país a sofrer um processo de impeachment aparentemente dentro da legalidade e perder seu cargo em definitivo.

Afastado preventivamente do cargo em agosto, por decisão monocrática do ministro do STJ Benedito Gonçalves, Witzel foi alvo, em conjunto com outras 11 pessoas, de denúncia movida pela Procuradoria-Geral da República por corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Rapidamente, submetido a um pedido de impeachment na Alerj, os deputados aprovaram, pelo impressionante placar de 69 a 0, a abertura do processo.

Atualmente, o governador está em processo de julgamento pelo tribunal misto, composto por 5 deputados e 5 desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado do Rio, responsável pelo julgamento final do pedido de impeachment.

Independente do resultado final do processo, que, a princípio, dificilmente culminará na absolvição de Witzel, parece seguro dizer que a precoce carreira política do governador terminará de forma tão rápida quanto começou. Isolado politicamente até por membros de seu próprio partido, Witzel, que conhecidamente alimentava sonhos de concorrer à presidência da república em 2022, se vê envolto em acusações de corrupção que vão na completa contramão do discurso anticorrupção que o elegeu.

A exemplo do atual prefeito do Município do Rio, Marcelo Crivella, Witzel dificilmente conseguirá vencer uma eleição para cargo majoritário, e, ao contrário de Crivella, não tem uma base fiel de eleitores, o que dificulta bastante uma possível eleição para cargos no Poder Legislativo.

Famoso por suas citações polêmicas enquanto governador em exercício, o autor da infame frase “vai mirar na cabecinha e.. fogo”, numa reviravolta digna dos filmes, parece estar agora com a sua própria cabeça na mira da PGR e do STJ.

Como muitos capítulos da história política brasileira, a história do ex-juiz federal eleito governador do segundo estado mais rico do país, calcado em um discurso de combate à corrupção, e que no meio da maior pandemia mundial em quase um século é denunciado e afastado do cargo em razão de desvio de verbas destinadas à saúde pública, parece tão fantasiosa que não seria aceita pelos melhores roteiristas de Hollywood, sob a alegação de ser inverossímil demais. Como diz o ditado, a diferença da ficção para a realidade é que a primeira deve fazer sentido.

Marlon-Cecilio-de-Souza (divulgação)

Marlon Cecilio de Souza é economista; pós-graduando em política e sociedade pelo Iesp-Uerj.

Luiz-Felipe-Sangi-do-Nascimento (divulgação)

Luiz Felipe Sangi do Nascimento é bacharel em direito; pós-graduando em advocacia pública pela Esap-PGE/RJ.

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